26.12.10

Saudades. Tanto tempo distante. Mas ainda não sei bem o que dizer... Você me entende, não é mesmo? Não tenho vontade de falar, talvez a busca pela casa seja a necessidade de encontrar um canto, um refúgio para mim. Estou precisando ficar dentro da casca. Sem falar muito sobre mim. Ok?
Vamos falar sobre você, hoje. Como você está? Como tem sentido a sua vida? Está feliz? Que questões a vida tem apresentado a você? Está apaixonado/a? É sempre bom ter um amor. Certo, entendi. Tudo bem, não precisa ser um homem ou uma mulher, pode ser uma paixão intensa pela vida. Uma vontade tirana de viver apesar de tudo. Uma confiança em tudo, apesar de a vida nem sempre confiar em você.
Hoje, estou como um livro de auto-ajuda. Um tanto sacal... mas vamos lá. Se jogue! Aproveite cada minuto da vida. Aproveite para não fazer nada de vez em quando; daqui a pouco, você vai estar tão comprometido/a com contas para pagar, mulher/marido para cuidar, filho para criar, trabalho para trabalhar todo dia, que não vai sobrar tempo para você rezar, se divertir e de vez em quando, não pensar em nada. Não tenha pressa. E viva aquilo que a vida te traz. Não seja ansioso. Ansioso para quê, Meu Deus?! Logo, logo passa outro trem. Você está na parada, aproveita para respirar, meditar e refletir, enquanto o trem não chega. Aproveite para olhar para o lado, olhar as pessoas que vão embarcar nessa com você. E não se esqueça: encare as pessoas nos olhos! É tão mágico. E flerte! Sempre que puder, é muito gostoso. Permita-se! Mesmo que não dê em nada, você pode ganhar um sorriso de alguém. E algo mágico acontece. 
A vida é feita de pequenos momentos mágicos. Nesse ano de tantos bebês, tantas chegadas. Percebi o quanto os bebês nos conectam ao sentimento de irmandade coletiva. Você vê um bebê na rua e já sorri. Experimente olhar para a mãe do bebê e sorrir também. Algumas se conectam a você e é mágico, você se sente presente, inteira/o parte de todo o Universo! 
Os animais também me causam essa mesma sensação; nem todos sentem isso pelos bichos. Eu sinto. Quando estou com eles, me sinto mais humana e me sinto mais perto da terra e mais perto de Deus. Afinal, falar todas as línguas é divino. Às vezes, fico olhando para meu gatinho e tento entender o que ele diz. Será que ele gosta dessa vida de apartamento? Às vezes vou lá onde ele está dormindo para acordá-lo e deixar a vida dele mais divertida, porque fico realmente pensando que deve ser chato dormir o dia todo. Tem vezes que eu gostaria de estar no seu lugar e não ter nenhuma preocupação e fazer aquelas caras de: "oi tudo bom pessoal, recém acordei, o que tem para eu comer? Alguém pode me pegar no colo? Preciso de um cafuné bem aqui, ó."
Ok, por hoje é só. Vou incomodar um pouco meu gato para ele não achar que a vida é só comer e dormir. Não necessariamente nessa ordem.

30.8.10

A tecitura de um sonho

 Uma mulher maravilhosa que sonha e inspira a todos. Vale a pena ver esse vídeo.

29.7.10

O poder feminino


Há uma mês tive a oportunidade de asssitir um parto em casa. Foi uma experiência única. Estou, agora, tentando descrever o indescritível. A parteira me telefona, dizendo que a gestante está em trabalho de parto. Chego à sua casa e sinto uma paz e um profundo acolhimento. Chego em silêncio ao lugar sagrado do parto. E vejo a mãe, uma grande mãe, muito empoderada e totalmente recolhida em seu mundo interno. Parecia meditar. A cada contração, a volta para dentro de si mesma, a busca de forças em seu mundo interno e era mágico acompanhar aquele momento. Sentia ali o poder do feminino e era como se aquele poder me empoderasse também e sentia a força de ser mulher e o poder que é dar à luz. O silêncio se fazia presente e só era possível ouvir o som de uma música meditativa que tocava ao fundo.
Impressionante. Palavra que define bem o meu estado diante daquela mulher. Ela sorri para mim, me chama para dentro do quarto e me acolhe. Eu entro sem jeito, pedindo licença, sem querer atrapalhar. Vejo seu companheiro. Um homem que dá sustentação àquele processo. Parceria. A união, a lua nova, o encontro do sol e da lua e o nascimento de uma nova família.
Toda a família participava com alegria, auxiliando de diferentes modos. Senti-me em casa. Senti como se estivesse voltando para casa, para um lugar há muito tempo conhecido. Um lugar onde não havia medo, mas entrega e confiança. Essas palavras ecoavam em meu coração. O trabalho de parto se estendeu pela manhã e fomos almoçar. Um almoço preparado pela mãe da mãe, uma geração de mulheres se apoiando, exercitando a confiança e desafiando um mundo que diz que parto em casa não é mais possível. A mesa estava alegre, especialmente com a presença da primogenita daquela mãe que estava para parir mais uma linda menina.  A criança de dois anos e meio era muito amada e esperta. Entre nós duas houve um encantamento à primeira vista.
Durante o almoço, o pai desce correndo as escadas e chama a parteira: "está na hora". A parteira sai correndo, o médico também. Eu vou aos poucos. E chego ao lugar. Lá está a mãe. Fico admirada diante dela, diante de seu poder. Entro em outro estado de espírito. Aquele momento único contagia a todos capazes de sentir, de perceber o que está ocorrendo ali. O nascimento de um novo ser. Uma mulher dando à luz. E certamente, naquele momento, lindos raios de sol deviam estar saindo daquele útero em direção à terra. Intensidade. Um intenso sentimento de plenitude tomava conta de mim. E agradeci por ser mulher e por poder presenciar aquela hora.
A parturiente sente que cada vez mais é chegada a hora e vai nascendo junto com sua filha. Há uma força que vem de dentro da mãe e toma conta de todo o ambiente. Também me sinto forte. Vocalizações. Tenho vontade de vocalizar junto com ela. E sinto como se muitas e muitas gerações de mulheres estivessem ali juntas parindo e auxiliando aquela mulher e seu bebê a nascerem. Sinto-me plena. E a nova menina nasce! Chega a menina nascida das águas, de um parto na água em casa! Uma alegria toma conta do meu ser, bem-vinda a nova mulher agora mãe! Bem-vinda Iara, rainha das águas!

Imagem: Birth, Alex Grey

22.7.10

Pensando... pensando... Um nó. Um grande fio emaranhado, um grande enredo. O que é um grande enredo, senão uma boa história? Uma boa história pode começar com uma grande confusão. E sinto que essa não é diferente. Há de haver um clímax. Um mocinho e uma mocinha metidos em uma grande enrascada. Também me sinto numa grande enrascada. Talvez seja o começo de uma boa história. Escrever... contar a própria história. Pode parecer fácil, pode parecer tranqüilo, talvez até seja para aqueles grandes historiadores, grandes contadores de história. Mas eu sou uma poeta menor. Não me atrevo a contar histórias, assim facilmente. Preciso de uma fogueira, ouvidos atentos, inspiração. Silêncio. E como encontrar o silêncio em meio a esse barulho mental, macaquinhos no sótão, que não param um minuto de me incomodar?
Tenho como proposta escrever. Escrever algo que me dê prazer. Como unir prazer e dever? Proposta difícil. Mas parece que amor e dor sempre estão juntos, fazem parte de um mesmo continum. Vida-morte-vida. Sou a mulher-esqueleto e também o pescador desavisado. Estou com medo de pescar. Estou com medo do amor. Estou com medo da dor. Estou com medo da vida. Vivemos tão desconectados que já não sabemos mais do que a vida é feita. E quando ela nos encara, tomamos um grande susto. Queremos sair correndo. Queremos deixar de viver. Até que resolvemos encarar. E então, como começar a viver? Como sair do modo automático? A mente atrapalha-se, as emoções confundem-se. O coração aperta, as mãos gelam. e se instala um medo paralisante, uma agonia. Mas como é mesmo viver? Como é mesmo amar, brincar, correr, pular, dançar, morrer, renascer? Estamos perdendo a noção de ciclos e espraguejamos a natureza que ainda tenta nos mostrar como a vida funciona: primavera, verão, outono, inverno, primavera. Vida-morte-vida. Vida-morte-vida. É como uma canção. É como o silêncio. É como dançar. Preciso aprender a dançar com a vida e perceber do que ela feita e de que se alimenta.
“Pra quê rimar amor e dor?”  A dor cura. A dor faz surgir um amor genuíno. Mas quem quer sentir dor? Quem quer sacrificar o amado ego? Todos querem a tal felicidade. E nos tornamos maníacos.  Há pílulas felizes. Cafeína, cocaína, anfetamínas. Magros e felizes. Requiem para um sonho. Sorrisos a la Coringa: rasgados, amarelos, psicóides. Um louco que não continua sua jornada em busca de si mesmo e permanece na própria loucura. Preciso de silêncio, preciso parar. Preciso aproveitar o inverno que faz lá fora e me deixar desfolhar. Preciso escrever, preciso amar. Deixar a marca sobre o papel, suporte que é, senão,  meu próprio corpo. Quero relatar minhas experiências como forma de curar minhas feridas, de olhar para elas e retirar o pûs.  Mas o cheiro podre não me deixa nem ao menos olhar. E só consigo chorar de dor. Uma dor que nem sei de onde vem. Parece que de todos os lados. Do centro do peito se irradia por todo corpo. Está no sangue. O sangue passa e dói. A dor é um sinal de que ainda estamos vivos. Carne. Há uma dor em estar vivo. Esse é o aprendizado. Essa é a recompensa. E quando menos esperamos, surge a vida, um alento, um alimento. Prometeu foi condenado a ter seu fígado eternamente dilacerado e regerado pelos deuses. E Kíron, o iniciador, o curador, a própria dor, o libertou. Quero narrar minha história que é a de todo mundo. E como ser uma boa narradora? E como começar a contar uma história? Comecemos, então, por “Era uma vez...”.

Imagem: Noiva Cadáver, filme de Tim Burton

12.7.10

Vênus em Escorpião



Sim. sim. sim... Eu quero agora! Agora! Para! Para. Vem. Rendo-me, rendo-me a ti. 
Nesse jogo tu sempre vences! Sou uma perdedora. Uma perdedora que se perde em ti. Perder-se. Eu quero é isso mesmo: me perder em teus braços e teus abraços. Desisto. Me perdi dentro de mim mesma e não me reconheço mais. Eu que era tão forte, tão racional... Ao teu lado a racionalidade se esvai por entre os dedos como areia fina... Sinto-me menina, e rio de mim mesma. Não deixa de ser engraçado uma mulher tão controlada, tão cheia de si, tão... tão... menina. Mulher. Mulher que te deseja. Vem para meus braços. Estou aqui entregue. 
Entregue ao desejo de deixar a razão de lado e apenas deixar a paixão que me queima tomar conta de mim. 
Confesso, confesso que realmente fujo e estou aqui a escrever para aliviar a tensão, o T, para que você não grite vitória diante de meus ouvidos. Que poder é esse que dou a ti?
- Sabe... a sensação de estar fora do controle não me faz nada bem. - Disse, enquanto tragava um cigarro.
Fechou a mão. Sua vontade era de matar. Matar aquele que a deixava fora do seu amado controle. Ela olhava para o nada, sentada na cama e continuava a fumar compulsiva, mas lentamente.
- Não sei o que sou capaz de fazer. - Fez uma pausa e olhou firmemente nos olhos debochados dele, que estava deitado com um sorriso satisfeito:
- Você sabe que brinca com fogo, não é?!
Ele soltou uma risada nervosa.

Imagem: O beijo de Gustav Klimt

7.7.10


"...Só tenho uma chave e não sei que porta ela abre."
Há uma força destrutiva. Muitas vezes nos ataca quando menos esperamos, quando olhamos o mundo com olhos de menina. Quando fingimos não sentir o cheiro da dor, do sofrimento de tantas mulheres que já passaram pelos mesmos enganos e ilusões quando se casaram com seu predador. Em sua barba azul está o registro da dor, é um azul de um sangue venoso, um sangue que não alimenta, pobre de oxigênio, um sangue que sufoca. Por que procuramos esse sufocamento? Até quando as mulheres continuarão sufocando sua arte, suas dores, suas vontades de ser mais, de procurar um verdadeiro amor, algo que as alimente verdadeiramente. Essa é minha busca, mas quanto mais imprimo força para ir atrás  dessa liberdade, desse amor, mais uma força contrária se faz presente. Há uma luta. Mas sinto que uma energia selvagem me guia e se mostra em meus sonhos.
Tive um sonho e não tive um sonho. Um devaneio. Um homem já conhecido chegava perto de mim, me abraçava. Eu por ele nada sentia. Nunca senti. Mas não conseguia afastá-lo do meu corpo. A cena era partilhada com outras pessoas conhecidas que aprovavam seu abraço, seu interesse de homem e não mais de amigo. E ele vinha. E me envolvia.  Sem  conseguir falar, me deixava envolver, sem saber o que fazer. Até que ele me beijou. Até que estava envolvida por ele, mesmo sem querer estar. E assim ficamos e ali fiquei enebriada. E via no olhar dos outros aprovação, embora eu mesma não aprovasse e achasse aquela situação toda muito estranha. Um tanto quanto sem cabimento.  Mas ao mesmo tempo pensava como a irmã mais nova: "até que a barba dele não é assim tão azul". Quantas vezes fiz isso? Perdi as contas. Quantas vezes sorri quando queria mostrar os dentes, quantas vezes beijei sem querer beijar, quantas vezes aceitei me maltratar. Quantas vezes fiquei com a chave na mão sem querer despertar. Quantas vezes abri a porta e não quis acreditar? Quantas vezes tive de tropeçar e tropeçar, morrer e nascer de novo? E quantas vezes mais terei de por essa situação passar. Nessas horas temos de lembrarmo-nos que a vida é uma grande espiral e que o que aparenta ser não é. E o que é não aparenta ser. 
Paciência. O exercício da paciência para com nossa infantilidade se faz necessário. E o reconhecimento de nossa luta e esforço também. Disciplina. Confesso que estou cansada de subir a montanha e não vejo a hora de encarar de uma vez por toda a dor para adquirir uma nova e renovada consciência sobre a vida, mim mesma. Descobrir a força destrutiva que há em nós pode nos ajudar a reconhecermos nossa própria força. Deixamos de projetá-la no outro para reconhecer em nós mesmas. E então podemos ir em busca Daquela Que Sabe, da Mulher Selvagem.
Excerto: Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.
Imagem1: http://lemuseemiroiteur.unblog.fr/tag/moimoimoi/les-dessous-de-la-palette/

20.6.10

Na noite escura da alma


"There is a woman in somalia
The sun gives her no mercy
The same sky we lay under
Burns her to the bone
Long as afternoon shadows
It's gonna take her to get home
Each grain carefully wrapped up
Pearls for her little girl"
 
Na noite em que nasceu aquela bela menina, seu pai não estava presente. Ela teve de ser tirada às pressas do útero de sua mãe, pois seu coração batia muito apressadamente, segundo o médico, e já estava na hora de nascer. A mãe sentia-se sozinha naquele instante, desprotegida, insegura. Entregou-se nas mãos de Deus. Confiou no médico e disse: "Doutor, estou em suas mãos". Ali já estava sendo montado o script da história daquela menina: lidar com a solidão, com a ausência, com um feedback do outro às vezes difícil de lidar. Logo que nasceu, percebeu-se que no seu peito havia uma ferida. Uma ferida que deveria ser sempre muito cuidada, porque qualquer coisa poderia torná-la exposta, uma ferida aberta e que poderia sangrar muito. Levá-la à falência ou a uma deformação do corpo.
Durante algum tempo, a menina viveu feliz, sem perceber a existência da ferida. Mas começou a crescer e a olhar melhor para o próprio corpo. Viu aquela cicatriz, mas não deu importância. Saiu ao mundo. Machucou-se algumas vezes. Sempre pelos mesmos motivos, mas continuava a ter as melhores esperanças diante do futuro que se mostrava longíquo. Sonhava. Sonhava muito.
Até que a ferida abriu-se demais, sangrou muito, e nessa época, achou que não podia mais viver, que era diferente, estranha. E seu corpo deformou-se pela primeira vez. Ficou horrorizada, já não podia mais olhar-se no espelho. Lágrimas caiam de seu rosto. E seu peito continuava aberto sem que encontrasse a cura. Já estava pálida. Até que encontrou um bálsamo. Era uma medida paliativa, mas que foi dando certo. Seu corpo começou a ter a forma de antes. Começou a olhar-se no espelho. Começou a sorrir novamente. E voltou a acreditar na vida, no futuro. Sentiu-se bem. Esqueceu do bálsamo. Encantou-se de novo, iludiu-se novamente, achando que já estava curada. E quando pensava que não mais havia ferida em seu peito. Sangrou profundamente. Novamente seu corpo deformou-se. Encontrou outro remédio, vindo de um boticário duvidoso, mas que funcionou durante um tempo. Até que o boticário resolveu ir embora e com ele, levou o remédio que tinha um grande efeito colateral. A ferida abriu-se novamente. Agora a pobre moça olha para a ferida e vê seu corpo começar a deformar-se. Não sabe o que fazer. Foi até uma feiticeira. Esta respondeu que a cura estava dentro dela mesma. A moça procura desesperadamente. Na verdade, neste instante já parou de procurar e quer mais é que essa ferida abra-se e que todo o sangue se esvaia por ali. Descobriu, então que a ferida fala. A ferida tem muita raiva. Um raiva contra ela mesma.
Ela pergunta-se surpresa: "Por quê? O que te fiz? Posso fazer algo para que me perdoes?" A ferida emudeceu. A raiva é grande. Um silêncio frio e congelante toma conta de seu coração. Sente-se perdida. Mas ainda acredita que alguém possa curá-la dessa ferida. E a tal ferida indigna-se. E jura que nunca se curará enquanto a moça, ela mesma, não buscar a cura em si mesma. A menina sonha, ainda sonha.

Excerto da música Pearls, Sade.

29.4.10


"Quem contar
Um sonho que sonhou
Não conta tudo o que encontrou
Contar um sonho é proibido
Eu sonhei
Um sonho com amor
E uma janela e uma flor
Uma fonte de água e o meu amigo
E não havia mais nada...
Só nós, a luz, e mais nada...
Ali morou o amor"


Sim. É lindo! Não é, lindo? Para tudo ficar maravilhoso, só preciso encontrar um grande amor, que pode não ser um amor carnal, mas alguém com quem rir, compartilhar meus sonhos, minhas histórias, sonhar juntos, chorar, afagar meus cabelos e eu afagar os seus. Dormir em seu colo aninhada como uma criança e me sentir imensamente feliz e completa por ali estar. Quero um ninho, um cantinho. Um Homem. Um homem que esteja buscando seu feminino também, que não queira apenas ser macho, mas que consiga apreciar a beleza de uma flor, de um pôr-do-sol, de uma lágrima a cair de um olhar cálido e terno. Quero o amor de um homem que não esconde seus sentimentos, que não tem medo de chorar, de ser ele mesmo e de estar inteiro em um relacionamento. Quero um homem inteiro, disposto também a viver inteiramente. Sem medos de se jogar na vida, de pular de paraquedas! Quero pular de paraquedas na direção dos teus braços! Sim! Sim! Um sorriso se faz em meu rosto ao te imaginar. Será que você existe? Será que eu existo? Será que peço demais?
Eu quero, quero ardentemente, taurinamente, ternamente, amarosamente, calidamente.
Mas se não te tiver, me resigno com o amor do mundo! Eu amo o mundo, principalmente quando o vejo evoluir desse modo! Que coisa linda!!!! Um amor toma conta do meu ser! Um amor maior que o mundo.

Imagem: Gustav Klimt, Danae
Excerto: Música de Madredeus, O sonho. Álbum: Antologia

23.4.10


Não me sinto ainda toda completa, toda perfeita. Toda eu mesma. Falta algo ainda. Falta muito, o mais. Falta eu sair daqui ou amar isso de vez. Falta eu dizer adeus e ir embora, sair desse velho e acomodado lugar. Falta eu te encontrar ou talvez falte eu me encontrar. Eu queria gritar isso aos quatro ventos, eu queria muito que você soubesse. Acho que foi bom o buraco que você deixou em minha vida, agora preciso, eu mesma, preencher. E buscar coisas novas. Mas era bom quando havia tu em meus sonhos.

Imagem: René Magritte, The lovers

9.2.10



Uma tristeza toma conta de mim. É curioso sentir essa tristeza em meio a um sentimento de grande paz e sintonia com o universo. Sou a própria antítese, a personificação do barroco. É como se sentisse o sentimento do mundo e essa tristeza toda é uma simples compaixão por uma gente que chora. Sinto-me aberta, em intensa conexão com o universo e posso sentir a tua dor. Posso sentir o que tu sentes. Respiro o mesmo ar, transpiro o mesmo suor. Sinto a morte, é um processo de morrer esse. Não existe mais ego. Sou a árvore e sua seiva corre por minhas veias latentes. Sugo a água da Mãe Terra e me sinto nutrida. Passáros vem comer meus frutos e sinto que posso voar. Voo longe com eles e sinto o vento passar. Luto contra a brisa para poder chegar ao meu destino, dou de comer ao meu filho. E já não sou pássaro, sou minhoca, sou o ovo, a história, o olhar de quem admira a perfeição da vida. Sou humano. Sou bicho. Sou planta, pedra, terra, água, fogo e ar. Sou o círculo, o quinto elemento. A união de todas as coisas. A perfeição. E tu também és. Vê como és belo e perfeito. Sou teu espelho e te dou a mão para podermos seguir juntos. Não estás só, estou ao teu lado. Não estamos sós, estão ao nosso lado. Como se sentir só em meio a tantos e tantos seres partilhando a vida conosco?
Uma tristeza toma conta de mim. Talvez porque ainda não vejas a beleza que há em tudo e fico triste por estares assim. Abre teus olhos e enxerga a perfeição da vida.

13.1.10



Quero um novo coração. Um coração novinho, capaz de amar, todo cheio de esperanças. Um coração de menina sonhadora, um coração que saiba se doar e que seja do tamanho do mundo capaz de a todos abarcar, amar. Eu quero um coração maior que o mundo, maior que eu mesma, capaz de chorar. Em troca doo um cérebro. Um cérebro que não para de pensar, o qual eu não consigo desligar. Ele pode ser útil para os impulsivos, para os que tem a cabeça cansada, para os velhos ou os que tem preguiça de pensar. Esse não tem preguiça de pensar, ele pensa o tempo todo, não para nunca. De noite, de dia, em sonho, dormindo. Sempre se exercita. Se meu cérebro tivesse músculo eu sofreria de hipertrofia muscular. E minha cabeça seria gigante. E como tem memória! É um espaço infinito de memória. É impossível.
Lembra-se da infância com detalhes. A primeira vez que foi para creche, o cheiro da primeira goiaba arrancada da árvore. O vento em seus cabelos, os castelinhos com seu pai na praia, os banhos de mar, os dedos murchos ao voltar para a areia. O sorriso feliz de estar no mar, a companhia amiga e cúmplice de seu pai, as diversas brincadeiras, as danças em cima dos pés, as cabanas na cama aos domingos. Os pulos na cama de seus pais. As guerras de cócegas com sua mãe, quem beijaria primeiro o nariz? As brincadeiras de esconde-esconde, as corridas na pracinha, andar de balanço e querer encostar com os pés nos galhos da árvore, o frio na barriga cada vez que ia mais longe, a sensação gostosa da brisa em seu rosto. Seus amigos queridos de infância. As lagartas, lesmas, tatu-bola, os dias de domingo na casa do avô. Os cheiros, a grama, o contato com a natureza, o amor por tudo. A alegria e o prazer dos pequenos momentos. Tudo guardado e nítido, brilhando. Tanta lembrança. Tanta sensação que dói sentir. Necessário se faz um coração novo. Um coração inteiro. Um coração de menina. Preciso resgatar a menina que há em mim. Preciso entender o que é o amor, o que é amar. O que é lembrar, o que é esquecer. Deixar-se viver. Deixar-se acalentar, embalar num colo aconchegante. Entregar. Entregar-se para vida. Toma conta de mim, embala meus sonhos e faz de mim menina. Inocente criatura que se impressiona com as pequenas coisas da vida.

Imagem: Frida Kahlo, Le due Frida.

23.12.09



"O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência
E a única inocência não pensar..."

Nunca se pode recuperar a ignorância perdida. Esse é o preço que se paga quando resolvemos realmente nos olhar. O espelho mágico tem me dito muitas verdades difíceis de aceitar. Mas são verdades e já não posso negar. Tanto olhei-me no espelho, tantas perguntas e agora tantas respostas e não adianta querer matar a Branca de Neve, já sabemos o fim da história. O inconsciente nunca morre, apenas se esconde de nossas vistas até que estejamos preparados para novamente olharmos para ele. E ele espera, espera. E um belo dia nos recebe. Quando aceitamos o lado mágico da vida, quando paramos de brigar com o nosso self. Como é difícil aceitar que não somos somente bruxas ou rainhas guerreiras, mas também belas mulheres femininas cheias de doçura e receptividade. Não somos somente a bela guerreira Atenas, mas também Coré. Filha, irmã e mãe. Todos os arquétipos existem em nós e isso são apenas papéis que exercemos, porque em verdade somos mulheres, a expressão do feminino. Afrodite.
E temos honrado esse feminino? Temos nos dado espaço para sermos verdadeiramente mulheres? Temos olhado para as nossas feridas? Nossas raízes? O que nos constitui? Qual a nossa linhagem? O que reproduzimos? Quais são os nossos padrões familiares?
Há um vazio. Um imenso vazio, feminino ferido, mas um masculino ainda mais ferido. Uma sociedade doente. Desenraizada, agonizante pois já não recebe mais a fluidez das águas que correm por debaixo da Terra e não sabe mais a que veio. Parece estar voando sem suas bases. Vivemos no automático. Perdemos a espontaneidade e já não sabemos de que modo servir ao mundo nem a nós mesmos. Nos perguntamos o tempo todo a que viemos e por negarmos a respota - porque se ouvíssemos teríamos de abrir mão de muita coisa - vivemos de preencher vazios. Comemos, compramos, bebemos, transamos, possuímos e projetamos nosso self sombrio no outro, nas coisas e buscamos incessantemente esses pedaços, esses cacos esfacelados de nós mesmos. E por isso é tão difícil deixar as coisas irem embora e fluir com a água, cada um que se vai, cada coisa que se parte é parte de nós que parte. Porque não conseguimos nos integrar, não admitimos nossa beleza. Hoje creio que o maior medo de se ver é o fato de perceber-se completo e não o medo de olhar o podre. Isso sabemos. Mas e quando percebermos que somos únicos, divinos, inteiros? O que faremos com isso? Não precisamos mais buscar fora, está tudo cá dentro.
O mundo é mais, nós somos muito mais. Podes agora descolar da parede, não necessitas mais destas muletas, vê teus pés, tuas raízes, sente tua força. Levanta-te e anda! E segue firme, afinal és um filho de Deus, um filho da Terra, da avó Lua e do avó Sol e seja lá como entendas esse Grande Mistério, tudo é a mesma coisa. Deus tem muitos nomes, esse é apenas um deles. João, Maria, flor, árvore, céu, estrelas, luz, pássaro, corpo, homem, mulher, vida. O ser de mil olhos, mãos, pés e braços.
Que a Vida me dê forças para romper com o que precisa ser rompido, honrar o que tem que ser honrado, viver o que tem que ser vivido. Tirar as rodinhas da bicicleta e perceber que já me equilibro sozinha e que posso andar muito hábil pelos campos a fora, pelos caminhos da vida.

Imagem: Vincent Van Gogh, The Mulberry Tree

Excerto: Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos, 1914.

17.11.09



Ainda dói. 
Ainda há dor.
Ainda a dor.
Ainda amor.
Ainda vida.
Quase morte.
Por que não morres?

Desligarei os aparelhos artificiais que te fazem viver. Já não faz mais sentido essa relação moribunda. Essa relação que me despedaça, mas que não me mata. Deixa eu desligar. Deixa que eu liberte nós dois desse sofrimento de viver pela metade. De não-vida. Deixemos que a morte nos invada. Nos entreguemos à libertação de um amor maior, verdadeiro. Sem apegos e misérias humanas mesquinhas. O que amamos um no outro? Busco a ti? Ou busco o resto da alegria minha, do sorriso meu que guardei em  ti? Que jornada é essa? Busco um espelho que reflete luz, mas não é a luz mesma. É simulacro, é engano, é engodo. Vamos separar o que é meu do que é teu para que possas ir sem me levar junto. Ainda não é minha hora de partir. Não posso morrer contigo, tenho de viver apesar de tudo. Apesar do abandono de mim, de toda a dor, de todo o desamor, de toda a vontade de partir. De não ser. De não estar. De explodir, de não reverenciar o que aí está. Tantas. Tantas vezes ouço vozes me dizem... Destruição. A morte instalou-se dentro de mim e pede as contas. Quer levar partes minhas que não consigo matar. 
- Mate de uma vez! Leva! Vai junto com as águas, com os rios. Que uma enxurrada me leve daqui. 
A vida é maior. A vida é o mundo. É um mundo inteiro! Continuarei cultivando nosso jardim. E aumentarei a variedade de flores e cores. Virão novas borboletas e também, novas lagartas. Parecerão pragas, mas uma paciência taurina espera a hora certa de apreciar sua transformação. Todo um ecossistema se forma novamente e a vida surge e tu ali estarás como passado, como morte.
Sinto-me como um esqueleto aqui ao teu lado. Um monólogo que segue compassado pelo som de aparelhos intermitentes que vivem por ti. Quem inventou essa enganação da morte? Por que não respondes, infeliz? Falo contigo! Morrerás por falência múltipla de órgãos, tudo morrerá aos poucos. Sordidamente. E eu postada ao teu lado, vendo cada pedacinho teu putrecer. Por que essa gana estúpida de viver? Por que viver desse jeito? Não cansaste disso tudo? Vai! Esquece esse corpo, me liberta. E deixa eu ser. Profana. Sagrada. Prosaica. A deusa. 
Estou jogada às traças. Vou me oferecer pro mar e ver se Yemanjá cuida de mim. Porque não tenho condições de cuidar de mais ninguém. São muitas as feridas e só o colo da Grande Mãe que tudo cura com seu sal poderá lavar minha'lma, lamber minhas feridas. Ó Grande Mãe me carrega como pescador. Faz de mim sereia do mar. Deixa-me viver o doce sonho das águas e ser pescada como um tesouro por um grande marinheiro cheio de sonhos e histórias sobre o mar. Aventuras que me embalem e me reconduzam à arte de amar.

Imagem: Willian Bouguereau

5.11.09


Sinto que uma história nascerá em mim. Florida. Alegre. Intensa.

Poderia eu só escrever? Apenas pintar e bordar? Apenas dançar e fluir com a música como água que corre entre as veias abertas da terra? Poderia, eu, ser apenas música mansa que balança e acalanta o choro da criança? Poderia eu ser apenas felicidade de cachorro abanando rabo, sorrindo com os olhos encantados. Quem dera pudesse ser apenas "grama verde em dia claro". Quem dera pudesse somente existir. Sem saber o que sou ou que devo ser. Devo? Devo o quê? A quem? Por que nos sentimos tão devedores? Tão culpados? Tão marcados? Esse Cristo pregado eternamente na cruz. Talvez até tenha ajudado a pregá-lo. Mas não hoje, não agora. Porque não enfatizamos Seu nascimento? Sua alegria? Seu perdão, Seu amor? Por que o passado e futuro são tão importantes? Por que essa preocupação extrema? Por que essa loucura toda? Por que criamos um sistema econômico do qual agora somos escravos? Não conseguimos indenpendência. Atingimos a maioridade aos 18 anos, mas ainda vivemos com nossos pais. Anita Malfati já corria o mundo aos dezesseis anos revolucionando com suas obras expressionistas. E eu recém me ensaiava na pintura. Ao mesmo tempo, que compromisso tenho eu de crescer e aparecer? O que é crescer? Ser o que todos querem que eu seja? Ou ser o que eu quero ser? É necessário ousar. Coragem leonina. Construção do ego e da própria identidade. Estou no mundo e não por acaso. Todos estamos aqui e nos encotramos por algum motivo, nos atraímos, ensinamos e aprendemos. Muitos pensamentos vêm à minha mente explosiva. Vulcões em erupção, vendavais, furacões.

Quero dar luz a uma história, quero dar luz à vida. Muitas idéias se passam em minha mente. Vários compromissos. Que me importa se o texto está coeso, não existem regras para o meu pensamento, ele simplesmente vem e não concorda com nada nem ninguém, muitas vezes discorda de mim. Uma hora estou aqui, outra estou lá e assim a imaginação segue numa linha discontínua, sem sentido para quem está de fora. Só faz sentido para seu dono, aliás, que dono? O pensamento faz o que bem entende da gente. Porque é fluxo latente, a lava de um vulcão querendo expandir. Pachamama, destruição-criação. Ar-terra. Preciso aterrar.

Imagem: Salvador Dalí

26.10.09


Corpos. Dois corpos se atraem. Química, física em prática. Pele com pele. Dois corpos. Mistura. Mistura de cheiros, sabores, gostos que despertam desejo vontade ação. E tudo é sim. A produção de uma grande abertura. A recepção das mãos no corpo que. Arrepios são uma forma de melhor sentir o toque, a pele em alerta, desejando ser tocada, desejando sentir, desejando desejar, amar. Carinhos, sins e nãos. E o corpo se torna um grande suporte do sentir. Um organismo sensório-motor-motriz. Trabalho transforma-se em energia e o corpo respira, transpira, se abre em poros e pelos. E te desejo e te desejo. Só mais um beijo.

Imagem: Gustav Klimt, O beijo.

15.8.09

Renascimento


Uma menina nasceu na beira do lago com a assistência de grandes peixes e sapos. Formigas, bactérias, plantas. Toda uma viva natureza ali estava naquela clara manhã de sol. Nasceu ali. Depois de muito sofrimento de sua mãe, que a pariu sozinha. Lavada pelas lágrimas da mãe, pensou a criança ser filha da chuva. Filha do céu e das nuvens. Urano, o pai céu. Ficou ali sozinha, depois de sentir um corpo quente contra o seu que lhe apertou forte. De sorte era verão, o bebê desnudo à margem do lago foi aquecido pelo sol intenso. Então chorou. Sem saber muito porquê. O choro de criança atraiu outros seres. Seres esvoassantes vieram até ela.
Ainda não sabia o nome das coisas, o que era feio ou bonito. Mal registrava o que via. Impressionava-se com tudo. Tudo era novo e tinha um encanto e colorido sem igual. Sentia-se pequena diante do todo. Esforçava-se para arregalar os olhos e enxergar melhor. Escutava melhor que enxergava. Escutava cantos de pássaros e vozes que a lembravam algo familiar. Gostava desse som familiar, embora não fossem as vozes de sua memória. Muito antes de perceber que o mundo era cheio de cor e vida, ouvia o escuro. Sentiu-se amparada. Sua mãe eram as estrelas, o céu infinito. Lua em Áquario conjunto Júpiter. Sol em Touro, primavera. A grama é coberta por um tapete de flores. E sente-se bem naquela manhã. Tudo parece calmo, claro, aconchegante e infinitamente grande. Deseja o céu. E o Urano ali está. Azul. Amparando aquela linda garotinha. Sente fome. E alguém vem lhe buscar. Que será? Chora. A única coisa que sabe fazer é chorar. Logo o pranto se desfaz acalentado por um colo quente e terno de mulher. Que a oferece o peito. Instintivamente busca aquele seio, no anseio de ali se nutrir, se aconchegar. Se revigora, novamente tem energia para chorar. É um bebê vigoroso. E novamente, aquele colo some. Estava quentinha nos braços daquela mulher e teve seu aconchego perturbado. A mulher vai embora e ela se torna só. O deus Céu de novo torna-se sua mãe. Infinita. Intermitência de uma lua aquariana.

Imagem: Frida Kahlo, Abrazo Amoroso, 1949.

7.8.09



"Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava."


Real. Ando extremamente realista. Entro em contato com o Real e percebo minha loucura. Não há nada mais louco do que tomar a palavra pelo que ela exatamente é: palavra. A coisa. É a extrema seca do ser. Preto branco. Já não há mais chuvas. Tudo é aridez. O seco toma conta e o sol torna-se causticante, intenso. Dolorido. Pesado. Fogo. Provação. Finalmente a dor é aquilo que se sente ao provarmos o real, a vida intensa, a vida que circula no sangue de um inseto, que pulsa na terra, nos vários pequenos seres que trabalham sem ninguém perceber, aquilo que se transforma a todo instante. A própria impermanência. O dia e a noite. A luz e a sombra. O natural e o que achamos ser sobrenatural. Tocar o real é ver a vida sem máscaras. É o nu. Apenas o nu. Sem desejo. Sem tesão. Sem asco. Sem assombro. É o que é. Está posto. Adão e Eva antes de comer a maçã. A inconsciência, a ideia de completude. Um cachorro vivo acha-se feliz porque não se percebe como cachorro.
Tapas na cara. A vida tem me dado muitos tapas. Já acordei sem mil vezes de doces sonhos desconexos. Os olhos não piscam mais. Nem abrem como antes. Estão fixos num ponto vago que nem mesmo eles sabem onde é. Não conseguem olhar pra fora. Mar adentro. Buscam um ponto na alma. E não entendem ou decodificam o que veem. Apenas olham. Tentam manter a sobriedade. Tentam enxergar a luz. Mas neles mesmos têm um maldito ponto cego. Uma escuridão que não se alumia. Em que parte da vida estou cega? O que eu não enxergo? Onde está o ponto cego? É possível enxergá-lo? É essa luz cega. Esse branco intenso no azul gritante do céu. Não se vê sombra. Um eterno meio-dia se faz sobre os seres e não há possibilidade de enxergar-se qualquer outra coisa além de objetos intensamente iluminados. O deserto o real o oasis o delíriO.
Imagem: Mulher Chorando, Cândido Portinari, 1945 Coleção Retirantes.
Excerto: Vidas Secas, Graciliano Ramos.

22.7.09

"Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral..."
Dias nublados. Dias cinzas. Netuno anda imprimindo sua força em meio a águas cancerianas. O sol aqui no sul tem aparecido timidamente em Câncer, como de costume. Dias de chuva. Muita chuva. Já não sei se vem dos céus ou da terra. E ando me pergutando a respeito de muitas coisas. Netuno tem me questionado, de um modo muito peculiar sobre a vida. E é nos grupos que sinto essas perguntas, essas questões ganham cores. O que tenho feito para a vida ter sentido? Quais são minhas ilusões? O que continua na sombra, escondido? Grandes momentos de abertura para a-mar, o grande inconsciente que carregamos em nós. Tive um sonho. Sonhei ir à praia. O dia estava tão nublado como hoje e a chuva também parecia vir de todos os lados. Aquela chuva fina. Aquele vento frio. Dias de inverno. Desci do ônibus que parou numa rua de frente para o mar. Acho que estava em Tramandaí. E isso faz todo o sentido; as férias de minha primeira infância se deram lá. Era uma tramandaí diferente. Era algo como Capão Novo. Calma. Com aquelas pedras nas vias. Junto de mim estava um amigo. Amigo de infância. Velho amigo, grande sábio. Sabe escutar. Aquela escuta em que a gente esquece do si mesmo e se dispõe a ouvir com os dois ouvidos. Esse amigo, estava ao meu lado. Ajudando-me a enfrentar a grande jornada. Mesmo com o frio, a chuva, o dia nublado, decidi ir até a praia. Meu velho amigo acompanhou-me como fiel escudeiro. O mar estava revolto. As ondas estavam enormes e passavam do limite imposto pela areia. Nos molhamos. As ondas nos pegaram. E não havia nenhum medo naquela situação. Parece que eu sabia da necessidade de me banhar. Tomar aqueles caldos de água. Tenho tomado até hoje esses caldos do mar. Esse sonho foi o marco, o início de toda a jornada pelas águas que estaria por vir. Sinto-me no meio do caminho. E quero atingir o caminho do meio. Na verdade não sei ao certo onde estou. Só sei que é importante navegar. Algumas vezes, o pai Céu me oferece dias de calmaria e muito sol. Momentos para respirar. Trégua entre Poseidon e o Céu. E outras vezes, novamente me afogo no mar. E há trovões e raios trazidos por Urano. Mas Júpiter também me acompanha e me ensina a ver longe, além mar, o objetivo de tudo isso. E me acalmo novamente, deixo-me afogar.
Outro dia se passou e já consigo ver a margem, os desdobramentos da transformação, da água salgada sobre minha pele. Estou emergindo como Afrodite; depois de uma luta intensa entre pai e filho, uma luta pelo poder, a consciência emerge, vem o amor de um coração cansado de racionalizar, de fazer o que é certo. O esperma do Céu mais uma vez fecunda Gaia, porque essa é sua natureza: incansavelmente criativa, criadora. E a Mãe Terra dá luz ao amor. Lutas internas, necessário se faz matar o pai, a autoridade autoritária para viver a vida. Plenamente. Amorosamente. Consciência. O amor emerge em mim.
Imagem: O nascimento de Vênus, 1863 - Alexandre Cabanel
Excerto: Caio Fernando Abreu, Além do Ponto em Morangos Mofados

8.7.09



Quem? Porque mesmo estou aqui? Será que tudo isso faz sentido? Ando fora, ando em borderline. Entre abismo. Não sei onde estou. Uma neblina toma conta de mim. Não enxergo. Netuno inundou minha terra e me sinto num mar de lama. Sou o Ulisses que quer voltar para casa. Busco Penélope em todos os cantos. E nenhuma das mulheres é ela. Iludido. Expectativas, anseios, desejos. Luto contra a força do mar, creio poder navegar sozinho. As ondas aumentam e me sinto extremamente frágil. Todo orgulho se vai. Estou humilhado, cansado, derrotado e com vontade de chorar. O que querem de mim, os Deuses? Quero, apenas retornar ao lar. Ítaca. Não importam mais as batalhas, as lutas ganhas. Isso já não faz mais sentido. E afinal o que faz sentido? Não posso mais fingir que não me abalo com coisas pequenas. Elas machucam, sim. Como posso dar voltas no mar? Quando penso estar perto de casa, me dou conta que estou mais distante. E já se passaram cinco anos que desapareci em meio às águas. Estou perdido. Perdido de mim mesmo. Não sei onde se encontra o fim da meada, o fio que tece a vida, o destino, o que fazem as três moiras? Bebi a águar de Leter e tudo esqueci, já não sei meu nome, para onde devo ir. Vago pela cidade. Vagabundos. Deixei um lugar vago não sei onde. Será que já foi ocupado? Será que esqueceram de mim. Eu esqueci de mim. Existo porque ainda sinto. Ainda choro por um passado que não sei quando foi. Parace que escrever me ajuda a dar sentido a tudo isso. Sei escrever. Fui um homem letrado? Nada sei. Quem me lê? Não vejo a hora de Netuno me deixar em paz. O que quer de mim, Senhor dos mares? O que preciso entender? Por que não sois claro e direto como fogo, porque vos encondeis n'água? Tudo parece tão rarefeito, liquefeito. Nada sinto. Estou sedado. Vejo tudo fora de foco. Forte miopia-neblina. Minhas lágrimas atrapalham minha visão clara e não consigo parar de chorar. Soluços vem e vão. Diafragma. Falta de ar. Sou um pássaro preso no mar. A água me sufoca. Preciso emergir. Sereias, feiticeiras dos mares. Cantos que me desviam da rota. Que rota? Não encontro mais meu norte. A última tempestade levou minha bússola para o mar. Nado e nado dentro do mar. E nada consigo encontrar. Encontro outros seres, outras cores que me fazem desviar. Remos? Velas? Também não os tenho. Novamente estou à deriva. Devo aprender a navegar. Ando fora.

2.7.09

"Silencio, no hay banda. É tudo uma ilusão."

As palavras dizem: "silêncio".
Silêncio. E silencio. Calmamente, fico quieta. No aguardo de um som, um som que diga: segue. Vai adiante, toma tuas palavras roubadas. Retoma. Tomar de novo aquilo que foi retirado. Engolir novas palavras e falar de outro jeito. Mas o som insiste: silêncio. Silêncio. Silêncio. Um mantra se instaura em meu ser e fico em estado de latência, tentativa de ouvir as palavras. "Silencio. No hay banda". David Lynch. Um convite à pausa necessária. Repouso da mente inquieta, louca, atada. Um convite a simplesmente olhar a vida sem julgamentos, um convite de alguém que cansou de falar, de brigar. De quem lutou contra as ondas do mar. Entrega. Deriva. Devir. O acontecimento que surpreende. Prende. Prende a gente naquele momento, nos faz parar o insano movimento circular. Inconsciente que emerge. Vem à tona. O lugar vazio. Contemplar o absurdo som ensurdecedor do silêncio. Forço uma resposta das palavras. Nada acontece. A tentativa de me aquietar. Deixar a vida me guiar. Aprender sem necessidade de tudo explicar. Racionalizar. Necessidade de seguir as emoções, o caminho da intuição. O coração. Então fico em silêncio. Cansei de lutar. Silêncio.
Imagem: Vincent Van Gogh, Noite de estrelas. 1889.
Excerto: Citação do Filme Cidade dos sonhos, David Lynch.