Uma tristeza toma conta de mim. É curioso sentir essa tristeza em meio a um sentimento de grande paz e sintonia com o universo. Sou a própria antítese, a personificação do barroco. É como se sentisse o sentimento do mundo e essa tristeza toda é uma simples compaixão por uma gente que chora. Sinto-me aberta, em intensa conexão com o universo e posso sentir a tua dor. Posso sentir o que tu sentes. Respiro o mesmo ar, transpiro o mesmo suor. Sinto a morte, é um processo de morrer esse. Não existe mais ego. Sou a árvore e sua seiva corre por minhas veias latentes. Sugo a água da Mãe Terra e me sinto nutrida. Passáros vem comer meus frutos e sinto que posso voar. Voo longe com eles e sinto o vento passar. Luto contra a brisa para poder chegar ao meu destino, dou de comer ao meu filho. E já não sou pássaro, sou minhoca, sou o ovo, a história, o olhar de quem admira a perfeição da vida. Sou humano. Sou bicho. Sou planta, pedra, terra, água, fogo e ar. Sou o círculo, o quinto elemento. A união de todas as coisas. A perfeição. E tu também és. Vê como és belo e perfeito. Sou teu espelho e te dou a mão para podermos seguir juntos. Não estás só, estou ao teu lado. Não estamos sós, estão ao nosso lado. Como se sentir só em meio a tantos e tantos seres partilhando a vida conosco?
9.2.10
Uma tristeza toma conta de mim. É curioso sentir essa tristeza em meio a um sentimento de grande paz e sintonia com o universo. Sou a própria antítese, a personificação do barroco. É como se sentisse o sentimento do mundo e essa tristeza toda é uma simples compaixão por uma gente que chora. Sinto-me aberta, em intensa conexão com o universo e posso sentir a tua dor. Posso sentir o que tu sentes. Respiro o mesmo ar, transpiro o mesmo suor. Sinto a morte, é um processo de morrer esse. Não existe mais ego. Sou a árvore e sua seiva corre por minhas veias latentes. Sugo a água da Mãe Terra e me sinto nutrida. Passáros vem comer meus frutos e sinto que posso voar. Voo longe com eles e sinto o vento passar. Luto contra a brisa para poder chegar ao meu destino, dou de comer ao meu filho. E já não sou pássaro, sou minhoca, sou o ovo, a história, o olhar de quem admira a perfeição da vida. Sou humano. Sou bicho. Sou planta, pedra, terra, água, fogo e ar. Sou o círculo, o quinto elemento. A união de todas as coisas. A perfeição. E tu também és. Vê como és belo e perfeito. Sou teu espelho e te dou a mão para podermos seguir juntos. Não estás só, estou ao teu lado. Não estamos sós, estão ao nosso lado. Como se sentir só em meio a tantos e tantos seres partilhando a vida conosco?
13.1.10
23.12.09
Nunca se pode recuperar a ignorância perdida. Esse é o preço que se paga quando resolvemos realmente nos olhar. O espelho mágico tem me dito muitas verdades difíceis de aceitar. Mas são verdades e já não posso negar. Tanto olhei-me no espelho, tantas perguntas e agora tantas respostas e não adianta querer matar a Branca de Neve, já sabemos o fim da história. O inconsciente nunca morre, apenas se esconde de nossas vistas até que estejamos preparados para novamente olharmos para ele. E ele espera, espera. E um belo dia nos recebe. Quando aceitamos o lado mágico da vida, quando paramos de brigar com o nosso self. Como é difícil aceitar que não somos somente bruxas ou rainhas guerreiras, mas também belas mulheres femininas cheias de doçura e receptividade. Não somos somente a bela guerreira Atenas, mas também Coré. Filha, irmã e mãe. Todos os arquétipos existem em nós e isso são apenas papéis que exercemos, porque em verdade somos mulheres, a expressão do feminino. Afrodite.
Excerto: Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos, 1914.
17.11.09
- Mate de uma vez! Leva! Vai junto com as águas, com os rios. Que uma enxurrada me leve daqui.
Estou jogada às traças. Vou me oferecer pro mar e ver se Yemanjá cuida de mim. Porque não tenho condições de cuidar de mais ninguém. São muitas as feridas e só o colo da Grande Mãe que tudo cura com seu sal poderá lavar minha'lma, lamber minhas feridas. Ó Grande Mãe me carrega como pescador. Faz de mim sereia do mar. Deixa-me viver o doce sonho das águas e ser pescada como um tesouro por um grande marinheiro cheio de sonhos e histórias sobre o mar. Aventuras que me embalem e me reconduzam à arte de amar.
Imagem: Willian Bouguereau
5.11.09

Imagem: Salvador Dalí
26.10.09

Imagem: Gustav Klimt, O beijo.
15.8.09
Renascimento

Ainda não sabia o nome das coisas, o que era feio ou bonito. Mal registrava o que via. Impressionava-se com tudo. Tudo era novo e tinha um encanto e colorido sem igual. Sentia-se pequena diante do todo. Esforçava-se para arregalar os olhos e enxergar melhor. Escutava melhor que enxergava. Escutava cantos de pássaros e vozes que a lembravam algo familiar. Gostava desse som familiar, embora não fossem as vozes de sua memória. Muito antes de perceber que o mundo era cheio de cor e vida, ouvia o escuro. Sentiu-se amparada. Sua mãe eram as estrelas, o céu infinito. Lua em Áquario conjunto Júpiter. Sol em Touro, primavera. A grama é coberta por um tapete de flores. E sente-se bem naquela manhã. Tudo parece calmo, claro, aconchegante e infinitamente grande. Deseja o céu. E o Urano ali está. Azul. Amparando aquela linda garotinha. Sente fome. E alguém vem lhe buscar. Que será? Chora. A única coisa que sabe fazer é chorar. Logo o pranto se desfaz acalentado por um colo quente e terno de mulher. Que a oferece o peito. Instintivamente busca aquele seio, no anseio de ali se nutrir, se aconchegar. Se revigora, novamente tem energia para chorar. É um bebê vigoroso. E novamente, aquele colo some. Estava quentinha nos braços daquela mulher e teve seu aconchego perturbado. A mulher vai embora e ela se torna só. O deus Céu de novo torna-se sua mãe. Infinita. Intermitência de uma lua aquariana.
Imagem: Frida Kahlo, Abrazo Amoroso, 1949.
7.8.09

Tapas na cara. A vida tem me dado muitos tapas. Já acordei sem mil vezes de doces sonhos desconexos. Os olhos não piscam mais. Nem abrem como antes. Estão fixos num ponto vago que nem mesmo eles sabem onde é. Não conseguem olhar pra fora. Mar adentro. Buscam um ponto na alma. E não entendem ou decodificam o que veem. Apenas olham. Tentam manter a sobriedade. Tentam enxergar a luz. Mas neles mesmos têm um maldito ponto cego. Uma escuridão que não se alumia. Em que parte da vida estou cega? O que eu não enxergo? Onde está o ponto cego? É possível enxergá-lo? É essa luz cega. Esse branco intenso no azul gritante do céu. Não se vê sombra. Um eterno meio-dia se faz sobre os seres e não há possibilidade de enxergar-se qualquer outra coisa além de objetos intensamente iluminados. O deserto o real o oasis o delíriO.
22.7.09
Outro dia se passou e já consigo ver a margem, os desdobramentos da transformação, da água salgada sobre minha pele. Estou emergindo como Afrodite; depois de uma luta intensa entre pai e filho, uma luta pelo poder, a consciência emerge, vem o amor de um coração cansado de racionalizar, de fazer o que é certo. O esperma do Céu mais uma vez fecunda Gaia, porque essa é sua natureza: incansavelmente criativa, criadora. E a Mãe Terra dá luz ao amor. Lutas internas, necessário se faz matar o pai, a autoridade autoritária para viver a vida. Plenamente. Amorosamente. Consciência. O amor emerge em mim.
8.7.09

2.7.09
"Silencio, no hay banda. É tudo uma ilusão." 31.5.09

Ultimamente pensamento e sentimento têm andado em sentidos opostos. A antítese, o antagonismo repousa em mim. E me perturba, me tira o sono. O que fazer? Por que essas situações aparecem agora? Não quero lidar com isso neste instante. Por que nesse exato momento? Você não pode esperar? Agora estou com pressa, muitas coisas a fazer. Quero voar.
A moça da casa rosada, quase abandonada, mal havia acordado aquela manhã, quando ouviu o soar da campanhia. Quem seria? Não aguardava ninguém, havia algum tempo. Já se acostumara com a companhia da solidão. E agora, sentia-se estranha diante de pessoas diferentes dela mesma. Acostumara-se com o silêncio das coisas, com a própria companhia, seus monólogos. A casa velha, a coleção de biscuit, o tapete desbotado da sala, a madeira, seu mundo. Lá fora nada lhe importava. No entanto, naquela manhã, havia decidido, depois de muito pensar, muito discutir consigo mesma sobre seus rumos, havia decidido que abandonaria tudo para conhecer a estranheza do mundo. Havia decidido que sairia daquele lugar, no alto da montanha solitária da pacata cidade. Queria misturar-se aos outros, ser outra. Conhecer. Deixar-se conhecer.
Mas quem seria? Quem viria até o alto da montanha para bater à sua porta? Quem viria interromper seus planos, todos os seus esquemas planejados para aquela manhã? Foi até a porta de mau-humor. Ainda hesitante. Deveria abrir a porta? Poderia fingir que não havia ninguém e esperar até a pessoa inoportuna embora. Din-don. São interrompidos seus pensamentos. A impaciência é, agora, sua companheira. Vai, então, até a porta decidida a expulsar o forasteiro. Deveria haver um bom motivo para importunar-lhe a essas horas da manhã. “Logo hoje que tenho tanto a fazer! Vamos acabar logo com isso, Veludo”. Disse a si mesma e a seu gato que apenas levantou as orelhas e continuou a dormir no sofá da sala.
Abre a porta. Não vê ninguém. Estranha, aliviada. “Foi embora”. Respira fundo. De repente, uma rosa segurada por uma mão estendida. Um corpo. Um homem. Que homem é esse? Seu coração dispara. Não esperava aquela visita, aquela rosa, aquela mão estendida oferecendo-lhe uma flor. Por que justo neste instante em que decide correr o mundo, vem algo, pedindo-lhe para ficar? Por que esse amor gratuito? Nunca o tinha visto ou o tinha desejado. Quem era aquele homem que batia a sua porta? Quis recusar, fechar a porta, ignorar. Não pode, o homem já havia entrado em sua vida, em sua casa. Procurava um lugar para sentar. “Moço, veja bem, não sei quem é, nem o que faz aqui, mas hoje tenho muito que fazer. Estou de malas prontas, de viagem. De passagem. Entenda, estou de malas prontas, de viagem. Preciso me apressar. Não tenho tempo para conversas, discussões. Deve haver um engano, bateu na porta errada, não sou sua amada”. O rapaz sorria e olhava para a moça como se já a conhecesse e soubesse seus segredos. Seu sorriso denunciava que já esperava aquela recepção. E cada atitude desconcertada que a moça tinha, o rapaz demonstrava mais certeza, em seu sorriso, de que aquilo tudo era esperado. E mais desconcertada a moça da casa rosada ficava. Não. Isso não podia estar acontecendo. Definitivamente deve haver algum engano. “Eu não o conheço. Como se atreve a olhar-me assim? Não lhe sou íntima. Como se chama?”
“Sou teus sonhos, o inesperado, a surpresa, o arrepio, o tremor, a vida que circula nas tuas veias”. Disse-lhe, respondendo seus pensamentos.
Imagem: Frida Kahlo, O suicídio de Dorothy Hale,1938.
13.5.09
Sempre gostei d'água, sempre senti-me viva n'água. Misturada, inteira dentro do mar. As ondas falam comigo, respondem às minhas perguntas a cada vez que em mim chegam: serenas, violentas, intensas, acolhedoras, límpidas. Descubro, então, que realmente sou água. Pura água, um dia, água pura. Cachoeira que chora. Salso chorão. A água doce que se encotra com o mar, Oxum e Yemanjá. Mãe Divina, Pachamama, Madeva. Sentimento que sente água. Amor líquido, fluido. Chuva. Bençãos do céu. Olhos molhados, coração que sente, língua d'alma. A lua, a mãe.
Imagem: René Magritte, Collective Invention 1933.
6.4.09

"Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso."
Ai me dói o peito. Quanta dor! É intensa interna não consigo chorar. Maldita dor. É mal de amor. Sou um sonhador. Vejo estrelas que já não existem mais e que daqui brilham tanto. Me apaixono por algo distante. Será que ainda brilha? Ainda ilmunina o horizonte. Ilumina a ilusão de ser logo adiante. E adiante. A mente voa, mas meus pés estão no chão. Não alcançam estrelas. Dói meu coração. Queria tocar luzes, sentir calor beleza doce de estrela. Meus pés estão no chão. Já não sei por onde ando, não sei se ando, quem me dera namorar estrelas. Piscam para mim. E sorrio mas não veem o brilho do meu sorriso pequeno e manso. Por que sonho com estrelas? Aqui tem mar-grama-fogo-ar. Quero o infinito, não tenho humildade. E as estrelas me chamam, voltam a piscar. Uma estrela cadente! Desce para ver-me. Corro até ela, mas o tal horizonte está sempre mais adiante.
Não encontro sentido no pequeno diário prosaico terreno. Um dia encontrarei? Queria deixar de fitar estrelas e sentir a terra pulsando no mesmo compasso do meu caminhar. E continua me doendo o coração. Uma dor vazia perdida sem sentido. Aflita. Onde está meu caminho? Que caminho tem coração?
Imagem: René Magritte, Espelho Falso23.1.09
"É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno." 7.1.09
A Vida Pulsa

21.12.08
A beleza das coisas

"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou."
O Eu ainda não se reconhece em mim mesma, a imagem é falsa, a visão embassada, a atitude enganada, a ilusão fortificada. Enquanto isso, o amor é sufocado por miragens, totens e tabus. Só quando o Eu tomar conta do Ser e a imagem se esvaziar e o falso brilho se apagar, a liberdade virá e o amor se libertará e se manifestará da forma que só ele sabe: puro, livre, intenso, alegre, grande, confortador, pleno. Tudo será amor e a toda volta estará sua presença. Belo, perfeito, perfumado como jasmim. A delicadeza da flor, a mistura tênue de cores e tons em cada pétala. A unidade na harmonia, a perfeição. A espiral. Onda do mar que nasce e morre na beira da praia para nos lavar. A vida em movimento. Dança de Shiva. Nascimento e morte. A criança dando os primeiros passos, o sorriso ensolorado da queda. A certeza da perfeição, o preto e o branco se fundem. Somos maiores que nós mesmos. Os quatro elementos formam um quinto. A quinta essência. O Espírito. Então, tudo será parte e todo, único e diferente. A diferença na unidade. O medo se dissipará, seremos tomados pela onda serena do amor. E tudo se expandirá.
Mas o Eu ainda não se reconhece em mim. Ardente desejo me toma. Necessidade de sentir a alegria eterna da alma, do Universo. A sincronia da vida, dos planetas em movimento. Quero entregar-me a essa enegia. Raio transformador. Júpiter. Expansão ilimitada. Confiança. Então a riqueza do mundo, a variedade da manifestação do amor. O Eu.
Imagem: Kandinsky, Small pleasures.
Excerto: Clarice Lispector, A hora da estrela.
13.12.08

Amarrada. A moça está amarrada em emaranhados que ela mesma fez noite passada. Tentava fiar toda a sua vida. Perdeu o controle, perdeu o norte e adormeceu. Caiu em sono profundo de longos pesadelos. Parecem reais. É tomada por um medo de não acordar. Ou será que está acordada? Confunde-se. Sonha. Entra num beco sem saída, que cai num poço profundo. Mergulho no inconsciente. Perdeu-se. A Alice perdida no seu próprio mundo. Visões, imagens fantásticas. O sorriso do gato. Milhares de histórias lhe vêm à mente e não consegue mais distinguir fantasia e realidade. Tudo se funde. Espetou o dedo no fuso enquanto tecia seu destino que parecia certo. Agora, Penélope espera Odisseu. Só seu amor pode lhe despertar para vida. Teme não reconhecê-lo na sua volta, teme não aguentar sua espera perder-se nos seus sonhos. Ficar ali. Emaranhada entre lãs e linhas, destinos fantásticos. Questiona-se. Deve esperar? Deve ceder? Há tantos chamados, tantas luzes, tantos brilhos em seus sonhos e linhas que entorpecem suas angústias e anseios. Entorpecem sua lembrança, seu amor por Odisseu. Olha a sua volta. Vê Odisseu em todos os rostos. Não será ele? Dá-me um beijo, pensa. Vem cá e desperta-me desse tormento. Encosta seus lábios nesses rostos. Desfacelam-se. E tudo é nada. Miragem. Devaneios criados. Fiados. O tear conhece seus segredos, todos os dias ajuda a tecer seu destino, que a noite desfia. Cada dia é um recomeço. Desencanto. Desamor. Em meio a figuras míticas, sente que as formas feitas de lã e linha têm muito a dizer. O que aprender com esses sonhos? Escuta as batidas do coração. Seu novo norte.
Imagem: Vincent Van Gogh, Peasant woman winding bobbins.
Excerto: Marina Colasanti, A moça tecelã.
3.12.08

Eu não sei o que sinto. Simplismente sinto. Desejo medo. Meus pés estão sobre as pedras de uma cachoeira linda, estou no limite da queda das águas, quero jogar-me. Cair nas águas, sentir seus frescor, sua energia. Mas parece alto demais, violenta demais suas águas. Então, o medo me toma. E fico estática. Ali em cima. Olho para ela. Envolvente. Sedutor movimento. Ouço sua voz. É música. Ela me conta muitas coisas e sinto mais vontade de atirar-me em suas águas. E mais medo. E fico confusa. Não quero perder essa sensação, não quero perder-te. Mas tenho de deixar a vida seguir seu fluxo, cada gota tomar seu caminho. Porque resistir? É tudo tão desconhecido. Ou conhecido? Parece, volto ao passado ao te sentir. Como se já tivesse sentido isso. E a dúvida me toma. Não quero. Eu quero. Eu quero o colo. O beijo d'água doce em meu rosto. O abraço, o envolvimento do rio que me toma. Fecho os olhos. Eu sou a água. Toda a sensação passa em minha mente como realidade. Vivencio em meus poros. Mas continuo ali. Parada. Os pés escorregam sobre as pedras. Piso em falso. A insegurança se apodera de mim. Preciso me tornar mais água, fluída como ela. Mais pedra, firme. Entrego-me a minha natureza.
Imagem: René Magritte, The evening dress, 1954.
Excerto: Casemiro Viera, Perdoa, meu amor.
22.11.08

- traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!"
Gostava de pensar que uma velha habitava meu corpo. Um espírito de velha. E como toda velha, essa também não deixava de ser rabujenta e a avó querida e sábia. Também não deixava de ser caduca e faladeira e cheia de manias andando com suas chinelas pra lá e pra cá. Metia o bedelho onde não era chamada, achava que sabia tudo, afinal tinha mais idade. Sempre estava com razão. E, algumas vezes dava-se conta de sua velhice, não dava o braço a torcer; - "vão achar que eu estou ficando velha". Criei essa velha que explica a mim mesma minhas rabujices, meu gosto velho. Realiza meu desejo de sábia mulher, sabedoria da experiência. A madureza tranqüila de quem já viu tudo no mundo e não se surpreende com nada mais. Acha graça de tudo, de si mesma. Acha-se engraçada, sua cara engraçada, olha-se e não vê seu reflexo. É uma velha. Mas o fato de ser velha não a fez esquecer sua juventude tampouco sua infância, os anos parecem aumentar sua capacidade de lembrar, - se surpreende. Músicas, cheiros, gostos, sorrisos, fotos, cenas do hoje que a levam imediatamente para o ontem. Quem a vê, não imagina o que se passa em sua mente, é como um nítido sonho. Lembra de seus amores e de cada detalhe. O sorriso os gestos os cabelos os olhares as mãos entrelaçadas os abraços os beijos. Amou. Amou a alma além do corpo. Como eram lindos os seus amores e desamores. Os gostos da infância. Admira-se com a vida, o ser, ama, sente. Vê seus netos. Vira menina-velha velha-menina. Rejuvenesce. Então ela brinca e ri.
Mário Quintana, O auto-retrato.




