9.2.10



Uma tristeza toma conta de mim. É curioso sentir essa tristeza em meio a um sentimento de grande paz e sintonia com o universo. Sou a própria antítese, a personificação do barroco. É como se sentisse o sentimento do mundo e essa tristeza toda é uma simples compaixão por uma gente que chora. Sinto-me aberta, em intensa conexão com o universo e posso sentir a tua dor. Posso sentir o que tu sentes. Respiro o mesmo ar, transpiro o mesmo suor. Sinto a morte, é um processo de morrer esse. Não existe mais ego. Sou a árvore e sua seiva corre por minhas veias latentes. Sugo a água da Mãe Terra e me sinto nutrida. Passáros vem comer meus frutos e sinto que posso voar. Voo longe com eles e sinto o vento passar. Luto contra a brisa para poder chegar ao meu destino, dou de comer ao meu filho. E já não sou pássaro, sou minhoca, sou o ovo, a história, o olhar de quem admira a perfeição da vida. Sou humano. Sou bicho. Sou planta, pedra, terra, água, fogo e ar. Sou o círculo, o quinto elemento. A união de todas as coisas. A perfeição. E tu também és. Vê como és belo e perfeito. Sou teu espelho e te dou a mão para podermos seguir juntos. Não estás só, estou ao teu lado. Não estamos sós, estão ao nosso lado. Como se sentir só em meio a tantos e tantos seres partilhando a vida conosco?
Uma tristeza toma conta de mim. Talvez porque ainda não vejas a beleza que há em tudo e fico triste por estares assim. Abre teus olhos e enxerga a perfeição da vida.

13.1.10



Quero um novo coração. Um coração novinho, capaz de amar, todo cheio de esperanças. Um coração de menina sonhadora, um coração que saiba se doar e que seja do tamanho do mundo capaz de a todos abarcar, amar. Eu quero um coração maior que o mundo, maior que eu mesma, capaz de chorar. Em troca doo um cérebro. Um cérebro que não para de pensar, o qual eu não consigo desligar. Ele pode ser útil para os impulsivos, para os que tem a cabeça cansada, para os velhos ou os que tem preguiça de pensar. Esse não tem preguiça de pensar, ele pensa o tempo todo, não para nunca. De noite, de dia, em sonho, dormindo. Sempre se exercita. Se meu cérebro tivesse músculo eu sofreria de hipertrofia muscular. E minha cabeça seria gigante. E como tem memória! É um espaço infinito de memória. É impossível.
Lembra-se da infância com detalhes. A primeira vez que foi para creche, o cheiro da primeira goiaba arrancada da árvore. O vento em seus cabelos, os castelinhos com seu pai na praia, os banhos de mar, os dedos murchos ao voltar para a areia. O sorriso feliz de estar no mar, a companhia amiga e cúmplice de seu pai, as diversas brincadeiras, as danças em cima dos pés, as cabanas na cama aos domingos. Os pulos na cama de seus pais. As guerras de cócegas com sua mãe, quem beijaria primeiro o nariz? As brincadeiras de esconde-esconde, as corridas na pracinha, andar de balanço e querer encostar com os pés nos galhos da árvore, o frio na barriga cada vez que ia mais longe, a sensação gostosa da brisa em seu rosto. Seus amigos queridos de infância. As lagartas, lesmas, tatu-bola, os dias de domingo na casa do avô. Os cheiros, a grama, o contato com a natureza, o amor por tudo. A alegria e o prazer dos pequenos momentos. Tudo guardado e nítido, brilhando. Tanta lembrança. Tanta sensação que dói sentir. Necessário se faz um coração novo. Um coração inteiro. Um coração de menina. Preciso resgatar a menina que há em mim. Preciso entender o que é o amor, o que é amar. O que é lembrar, o que é esquecer. Deixar-se viver. Deixar-se acalentar, embalar num colo aconchegante. Entregar. Entregar-se para vida. Toma conta de mim, embala meus sonhos e faz de mim menina. Inocente criatura que se impressiona com as pequenas coisas da vida.

Imagem: Frida Kahlo, Le due Frida.

23.12.09



"O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência
E a única inocência não pensar..."

Nunca se pode recuperar a ignorância perdida. Esse é o preço que se paga quando resolvemos realmente nos olhar. O espelho mágico tem me dito muitas verdades difíceis de aceitar. Mas são verdades e já não posso negar. Tanto olhei-me no espelho, tantas perguntas e agora tantas respostas e não adianta querer matar a Branca de Neve, já sabemos o fim da história. O inconsciente nunca morre, apenas se esconde de nossas vistas até que estejamos preparados para novamente olharmos para ele. E ele espera, espera. E um belo dia nos recebe. Quando aceitamos o lado mágico da vida, quando paramos de brigar com o nosso self. Como é difícil aceitar que não somos somente bruxas ou rainhas guerreiras, mas também belas mulheres femininas cheias de doçura e receptividade. Não somos somente a bela guerreira Atenas, mas também Coré. Filha, irmã e mãe. Todos os arquétipos existem em nós e isso são apenas papéis que exercemos, porque em verdade somos mulheres, a expressão do feminino. Afrodite.
E temos honrado esse feminino? Temos nos dado espaço para sermos verdadeiramente mulheres? Temos olhado para as nossas feridas? Nossas raízes? O que nos constitui? Qual a nossa linhagem? O que reproduzimos? Quais são os nossos padrões familiares?
Há um vazio. Um imenso vazio, feminino ferido, mas um masculino ainda mais ferido. Uma sociedade doente. Desenraizada, agonizante pois já não recebe mais a fluidez das águas que correm por debaixo da Terra e não sabe mais a que veio. Parece estar voando sem suas bases. Vivemos no automático. Perdemos a espontaneidade e já não sabemos de que modo servir ao mundo nem a nós mesmos. Nos perguntamos o tempo todo a que viemos e por negarmos a respota - porque se ouvíssemos teríamos de abrir mão de muita coisa - vivemos de preencher vazios. Comemos, compramos, bebemos, transamos, possuímos e projetamos nosso self sombrio no outro, nas coisas e buscamos incessantemente esses pedaços, esses cacos esfacelados de nós mesmos. E por isso é tão difícil deixar as coisas irem embora e fluir com a água, cada um que se vai, cada coisa que se parte é parte de nós que parte. Porque não conseguimos nos integrar, não admitimos nossa beleza. Hoje creio que o maior medo de se ver é o fato de perceber-se completo e não o medo de olhar o podre. Isso sabemos. Mas e quando percebermos que somos únicos, divinos, inteiros? O que faremos com isso? Não precisamos mais buscar fora, está tudo cá dentro.
O mundo é mais, nós somos muito mais. Podes agora descolar da parede, não necessitas mais destas muletas, vê teus pés, tuas raízes, sente tua força. Levanta-te e anda! E segue firme, afinal és um filho de Deus, um filho da Terra, da avó Lua e do avó Sol e seja lá como entendas esse Grande Mistério, tudo é a mesma coisa. Deus tem muitos nomes, esse é apenas um deles. João, Maria, flor, árvore, céu, estrelas, luz, pássaro, corpo, homem, mulher, vida. O ser de mil olhos, mãos, pés e braços.
Que a Vida me dê forças para romper com o que precisa ser rompido, honrar o que tem que ser honrado, viver o que tem que ser vivido. Tirar as rodinhas da bicicleta e perceber que já me equilibro sozinha e que posso andar muito hábil pelos campos a fora, pelos caminhos da vida.

Imagem: Vincent Van Gogh, The Mulberry Tree

Excerto: Alberto Caeiro, O guardador de rebanhos, 1914.

17.11.09



Ainda dói. 
Ainda há dor.
Ainda a dor.
Ainda amor.
Ainda vida.
Quase morte.
Por que não morres?

Desligarei os aparelhos artificiais que te fazem viver. Já não faz mais sentido essa relação moribunda. Essa relação que me despedaça, mas que não me mata. Deixa eu desligar. Deixa que eu liberte nós dois desse sofrimento de viver pela metade. De não-vida. Deixemos que a morte nos invada. Nos entreguemos à libertação de um amor maior, verdadeiro. Sem apegos e misérias humanas mesquinhas. O que amamos um no outro? Busco a ti? Ou busco o resto da alegria minha, do sorriso meu que guardei em  ti? Que jornada é essa? Busco um espelho que reflete luz, mas não é a luz mesma. É simulacro, é engano, é engodo. Vamos separar o que é meu do que é teu para que possas ir sem me levar junto. Ainda não é minha hora de partir. Não posso morrer contigo, tenho de viver apesar de tudo. Apesar do abandono de mim, de toda a dor, de todo o desamor, de toda a vontade de partir. De não ser. De não estar. De explodir, de não reverenciar o que aí está. Tantas. Tantas vezes ouço vozes me dizem... Destruição. A morte instalou-se dentro de mim e pede as contas. Quer levar partes minhas que não consigo matar. 
- Mate de uma vez! Leva! Vai junto com as águas, com os rios. Que uma enxurrada me leve daqui. 
A vida é maior. A vida é o mundo. É um mundo inteiro! Continuarei cultivando nosso jardim. E aumentarei a variedade de flores e cores. Virão novas borboletas e também, novas lagartas. Parecerão pragas, mas uma paciência taurina espera a hora certa de apreciar sua transformação. Todo um ecossistema se forma novamente e a vida surge e tu ali estarás como passado, como morte.
Sinto-me como um esqueleto aqui ao teu lado. Um monólogo que segue compassado pelo som de aparelhos intermitentes que vivem por ti. Quem inventou essa enganação da morte? Por que não respondes, infeliz? Falo contigo! Morrerás por falência múltipla de órgãos, tudo morrerá aos poucos. Sordidamente. E eu postada ao teu lado, vendo cada pedacinho teu putrecer. Por que essa gana estúpida de viver? Por que viver desse jeito? Não cansaste disso tudo? Vai! Esquece esse corpo, me liberta. E deixa eu ser. Profana. Sagrada. Prosaica. A deusa. 
Estou jogada às traças. Vou me oferecer pro mar e ver se Yemanjá cuida de mim. Porque não tenho condições de cuidar de mais ninguém. São muitas as feridas e só o colo da Grande Mãe que tudo cura com seu sal poderá lavar minha'lma, lamber minhas feridas. Ó Grande Mãe me carrega como pescador. Faz de mim sereia do mar. Deixa-me viver o doce sonho das águas e ser pescada como um tesouro por um grande marinheiro cheio de sonhos e histórias sobre o mar. Aventuras que me embalem e me reconduzam à arte de amar.

Imagem: Willian Bouguereau

5.11.09


Sinto que uma história nascerá em mim. Florida. Alegre. Intensa.

Poderia eu só escrever? Apenas pintar e bordar? Apenas dançar e fluir com a música como água que corre entre as veias abertas da terra? Poderia, eu, ser apenas música mansa que balança e acalanta o choro da criança? Poderia eu ser apenas felicidade de cachorro abanando rabo, sorrindo com os olhos encantados. Quem dera pudesse ser apenas "grama verde em dia claro". Quem dera pudesse somente existir. Sem saber o que sou ou que devo ser. Devo? Devo o quê? A quem? Por que nos sentimos tão devedores? Tão culpados? Tão marcados? Esse Cristo pregado eternamente na cruz. Talvez até tenha ajudado a pregá-lo. Mas não hoje, não agora. Porque não enfatizamos Seu nascimento? Sua alegria? Seu perdão, Seu amor? Por que o passado e futuro são tão importantes? Por que essa preocupação extrema? Por que essa loucura toda? Por que criamos um sistema econômico do qual agora somos escravos? Não conseguimos indenpendência. Atingimos a maioridade aos 18 anos, mas ainda vivemos com nossos pais. Anita Malfati já corria o mundo aos dezesseis anos revolucionando com suas obras expressionistas. E eu recém me ensaiava na pintura. Ao mesmo tempo, que compromisso tenho eu de crescer e aparecer? O que é crescer? Ser o que todos querem que eu seja? Ou ser o que eu quero ser? É necessário ousar. Coragem leonina. Construção do ego e da própria identidade. Estou no mundo e não por acaso. Todos estamos aqui e nos encotramos por algum motivo, nos atraímos, ensinamos e aprendemos. Muitos pensamentos vêm à minha mente explosiva. Vulcões em erupção, vendavais, furacões.

Quero dar luz a uma história, quero dar luz à vida. Muitas idéias se passam em minha mente. Vários compromissos. Que me importa se o texto está coeso, não existem regras para o meu pensamento, ele simplesmente vem e não concorda com nada nem ninguém, muitas vezes discorda de mim. Uma hora estou aqui, outra estou lá e assim a imaginação segue numa linha discontínua, sem sentido para quem está de fora. Só faz sentido para seu dono, aliás, que dono? O pensamento faz o que bem entende da gente. Porque é fluxo latente, a lava de um vulcão querendo expandir. Pachamama, destruição-criação. Ar-terra. Preciso aterrar.

Imagem: Salvador Dalí

26.10.09


Corpos. Dois corpos se atraem. Química, física em prática. Pele com pele. Dois corpos. Mistura. Mistura de cheiros, sabores, gostos que despertam desejo vontade ação. E tudo é sim. A produção de uma grande abertura. A recepção das mãos no corpo que. Arrepios são uma forma de melhor sentir o toque, a pele em alerta, desejando ser tocada, desejando sentir, desejando desejar, amar. Carinhos, sins e nãos. E o corpo se torna um grande suporte do sentir. Um organismo sensório-motor-motriz. Trabalho transforma-se em energia e o corpo respira, transpira, se abre em poros e pelos. E te desejo e te desejo. Só mais um beijo.

Imagem: Gustav Klimt, O beijo.

15.8.09

Renascimento


Uma menina nasceu na beira do lago com a assistência de grandes peixes e sapos. Formigas, bactérias, plantas. Toda uma viva natureza ali estava naquela clara manhã de sol. Nasceu ali. Depois de muito sofrimento de sua mãe, que a pariu sozinha. Lavada pelas lágrimas da mãe, pensou a criança ser filha da chuva. Filha do céu e das nuvens. Urano, o pai céu. Ficou ali sozinha, depois de sentir um corpo quente contra o seu que lhe apertou forte. De sorte era verão, o bebê desnudo à margem do lago foi aquecido pelo sol intenso. Então chorou. Sem saber muito porquê. O choro de criança atraiu outros seres. Seres esvoassantes vieram até ela.
Ainda não sabia o nome das coisas, o que era feio ou bonito. Mal registrava o que via. Impressionava-se com tudo. Tudo era novo e tinha um encanto e colorido sem igual. Sentia-se pequena diante do todo. Esforçava-se para arregalar os olhos e enxergar melhor. Escutava melhor que enxergava. Escutava cantos de pássaros e vozes que a lembravam algo familiar. Gostava desse som familiar, embora não fossem as vozes de sua memória. Muito antes de perceber que o mundo era cheio de cor e vida, ouvia o escuro. Sentiu-se amparada. Sua mãe eram as estrelas, o céu infinito. Lua em Áquario conjunto Júpiter. Sol em Touro, primavera. A grama é coberta por um tapete de flores. E sente-se bem naquela manhã. Tudo parece calmo, claro, aconchegante e infinitamente grande. Deseja o céu. E o Urano ali está. Azul. Amparando aquela linda garotinha. Sente fome. E alguém vem lhe buscar. Que será? Chora. A única coisa que sabe fazer é chorar. Logo o pranto se desfaz acalentado por um colo quente e terno de mulher. Que a oferece o peito. Instintivamente busca aquele seio, no anseio de ali se nutrir, se aconchegar. Se revigora, novamente tem energia para chorar. É um bebê vigoroso. E novamente, aquele colo some. Estava quentinha nos braços daquela mulher e teve seu aconchego perturbado. A mulher vai embora e ela se torna só. O deus Céu de novo torna-se sua mãe. Infinita. Intermitência de uma lua aquariana.

Imagem: Frida Kahlo, Abrazo Amoroso, 1949.

7.8.09



"Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava."


Real. Ando extremamente realista. Entro em contato com o Real e percebo minha loucura. Não há nada mais louco do que tomar a palavra pelo que ela exatamente é: palavra. A coisa. É a extrema seca do ser. Preto branco. Já não há mais chuvas. Tudo é aridez. O seco toma conta e o sol torna-se causticante, intenso. Dolorido. Pesado. Fogo. Provação. Finalmente a dor é aquilo que se sente ao provarmos o real, a vida intensa, a vida que circula no sangue de um inseto, que pulsa na terra, nos vários pequenos seres que trabalham sem ninguém perceber, aquilo que se transforma a todo instante. A própria impermanência. O dia e a noite. A luz e a sombra. O natural e o que achamos ser sobrenatural. Tocar o real é ver a vida sem máscaras. É o nu. Apenas o nu. Sem desejo. Sem tesão. Sem asco. Sem assombro. É o que é. Está posto. Adão e Eva antes de comer a maçã. A inconsciência, a ideia de completude. Um cachorro vivo acha-se feliz porque não se percebe como cachorro.
Tapas na cara. A vida tem me dado muitos tapas. Já acordei sem mil vezes de doces sonhos desconexos. Os olhos não piscam mais. Nem abrem como antes. Estão fixos num ponto vago que nem mesmo eles sabem onde é. Não conseguem olhar pra fora. Mar adentro. Buscam um ponto na alma. E não entendem ou decodificam o que veem. Apenas olham. Tentam manter a sobriedade. Tentam enxergar a luz. Mas neles mesmos têm um maldito ponto cego. Uma escuridão que não se alumia. Em que parte da vida estou cega? O que eu não enxergo? Onde está o ponto cego? É possível enxergá-lo? É essa luz cega. Esse branco intenso no azul gritante do céu. Não se vê sombra. Um eterno meio-dia se faz sobre os seres e não há possibilidade de enxergar-se qualquer outra coisa além de objetos intensamente iluminados. O deserto o real o oasis o delíriO.
Imagem: Mulher Chorando, Cândido Portinari, 1945 Coleção Retirantes.
Excerto: Vidas Secas, Graciliano Ramos.

22.7.09

"Chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz? me perguntei, como se faz isso de colocar um pé após o outro, equilibrando a cabeça sobre os ombros, mantendo ereta a coluna vertebral..."
Dias nublados. Dias cinzas. Netuno anda imprimindo sua força em meio a águas cancerianas. O sol aqui no sul tem aparecido timidamente em Câncer, como de costume. Dias de chuva. Muita chuva. Já não sei se vem dos céus ou da terra. E ando me pergutando a respeito de muitas coisas. Netuno tem me questionado, de um modo muito peculiar sobre a vida. E é nos grupos que sinto essas perguntas, essas questões ganham cores. O que tenho feito para a vida ter sentido? Quais são minhas ilusões? O que continua na sombra, escondido? Grandes momentos de abertura para a-mar, o grande inconsciente que carregamos em nós. Tive um sonho. Sonhei ir à praia. O dia estava tão nublado como hoje e a chuva também parecia vir de todos os lados. Aquela chuva fina. Aquele vento frio. Dias de inverno. Desci do ônibus que parou numa rua de frente para o mar. Acho que estava em Tramandaí. E isso faz todo o sentido; as férias de minha primeira infância se deram lá. Era uma tramandaí diferente. Era algo como Capão Novo. Calma. Com aquelas pedras nas vias. Junto de mim estava um amigo. Amigo de infância. Velho amigo, grande sábio. Sabe escutar. Aquela escuta em que a gente esquece do si mesmo e se dispõe a ouvir com os dois ouvidos. Esse amigo, estava ao meu lado. Ajudando-me a enfrentar a grande jornada. Mesmo com o frio, a chuva, o dia nublado, decidi ir até a praia. Meu velho amigo acompanhou-me como fiel escudeiro. O mar estava revolto. As ondas estavam enormes e passavam do limite imposto pela areia. Nos molhamos. As ondas nos pegaram. E não havia nenhum medo naquela situação. Parece que eu sabia da necessidade de me banhar. Tomar aqueles caldos de água. Tenho tomado até hoje esses caldos do mar. Esse sonho foi o marco, o início de toda a jornada pelas águas que estaria por vir. Sinto-me no meio do caminho. E quero atingir o caminho do meio. Na verdade não sei ao certo onde estou. Só sei que é importante navegar. Algumas vezes, o pai Céu me oferece dias de calmaria e muito sol. Momentos para respirar. Trégua entre Poseidon e o Céu. E outras vezes, novamente me afogo no mar. E há trovões e raios trazidos por Urano. Mas Júpiter também me acompanha e me ensina a ver longe, além mar, o objetivo de tudo isso. E me acalmo novamente, deixo-me afogar.
Outro dia se passou e já consigo ver a margem, os desdobramentos da transformação, da água salgada sobre minha pele. Estou emergindo como Afrodite; depois de uma luta intensa entre pai e filho, uma luta pelo poder, a consciência emerge, vem o amor de um coração cansado de racionalizar, de fazer o que é certo. O esperma do Céu mais uma vez fecunda Gaia, porque essa é sua natureza: incansavelmente criativa, criadora. E a Mãe Terra dá luz ao amor. Lutas internas, necessário se faz matar o pai, a autoridade autoritária para viver a vida. Plenamente. Amorosamente. Consciência. O amor emerge em mim.
Imagem: O nascimento de Vênus, 1863 - Alexandre Cabanel
Excerto: Caio Fernando Abreu, Além do Ponto em Morangos Mofados

8.7.09



Quem? Porque mesmo estou aqui? Será que tudo isso faz sentido? Ando fora, ando em borderline. Entre abismo. Não sei onde estou. Uma neblina toma conta de mim. Não enxergo. Netuno inundou minha terra e me sinto num mar de lama. Sou o Ulisses que quer voltar para casa. Busco Penélope em todos os cantos. E nenhuma das mulheres é ela. Iludido. Expectativas, anseios, desejos. Luto contra a força do mar, creio poder navegar sozinho. As ondas aumentam e me sinto extremamente frágil. Todo orgulho se vai. Estou humilhado, cansado, derrotado e com vontade de chorar. O que querem de mim, os Deuses? Quero, apenas retornar ao lar. Ítaca. Não importam mais as batalhas, as lutas ganhas. Isso já não faz mais sentido. E afinal o que faz sentido? Não posso mais fingir que não me abalo com coisas pequenas. Elas machucam, sim. Como posso dar voltas no mar? Quando penso estar perto de casa, me dou conta que estou mais distante. E já se passaram cinco anos que desapareci em meio às águas. Estou perdido. Perdido de mim mesmo. Não sei onde se encontra o fim da meada, o fio que tece a vida, o destino, o que fazem as três moiras? Bebi a águar de Leter e tudo esqueci, já não sei meu nome, para onde devo ir. Vago pela cidade. Vagabundos. Deixei um lugar vago não sei onde. Será que já foi ocupado? Será que esqueceram de mim. Eu esqueci de mim. Existo porque ainda sinto. Ainda choro por um passado que não sei quando foi. Parace que escrever me ajuda a dar sentido a tudo isso. Sei escrever. Fui um homem letrado? Nada sei. Quem me lê? Não vejo a hora de Netuno me deixar em paz. O que quer de mim, Senhor dos mares? O que preciso entender? Por que não sois claro e direto como fogo, porque vos encondeis n'água? Tudo parece tão rarefeito, liquefeito. Nada sinto. Estou sedado. Vejo tudo fora de foco. Forte miopia-neblina. Minhas lágrimas atrapalham minha visão clara e não consigo parar de chorar. Soluços vem e vão. Diafragma. Falta de ar. Sou um pássaro preso no mar. A água me sufoca. Preciso emergir. Sereias, feiticeiras dos mares. Cantos que me desviam da rota. Que rota? Não encontro mais meu norte. A última tempestade levou minha bússola para o mar. Nado e nado dentro do mar. E nada consigo encontrar. Encontro outros seres, outras cores que me fazem desviar. Remos? Velas? Também não os tenho. Novamente estou à deriva. Devo aprender a navegar. Ando fora.

2.7.09

"Silencio, no hay banda. É tudo uma ilusão."

As palavras dizem: "silêncio".
Silêncio. E silencio. Calmamente, fico quieta. No aguardo de um som, um som que diga: segue. Vai adiante, toma tuas palavras roubadas. Retoma. Tomar de novo aquilo que foi retirado. Engolir novas palavras e falar de outro jeito. Mas o som insiste: silêncio. Silêncio. Silêncio. Um mantra se instaura em meu ser e fico em estado de latência, tentativa de ouvir as palavras. "Silencio. No hay banda". David Lynch. Um convite à pausa necessária. Repouso da mente inquieta, louca, atada. Um convite a simplesmente olhar a vida sem julgamentos, um convite de alguém que cansou de falar, de brigar. De quem lutou contra as ondas do mar. Entrega. Deriva. Devir. O acontecimento que surpreende. Prende. Prende a gente naquele momento, nos faz parar o insano movimento circular. Inconsciente que emerge. Vem à tona. O lugar vazio. Contemplar o absurdo som ensurdecedor do silêncio. Forço uma resposta das palavras. Nada acontece. A tentativa de me aquietar. Deixar a vida me guiar. Aprender sem necessidade de tudo explicar. Racionalizar. Necessidade de seguir as emoções, o caminho da intuição. O coração. Então fico em silêncio. Cansei de lutar. Silêncio.
Imagem: Vincent Van Gogh, Noite de estrelas. 1889.
Excerto: Citação do Filme Cidade dos sonhos, David Lynch.

31.5.09



Ultimamente pensamento e sentimento têm andado em sentidos opostos. A antítese, o antagonismo repousa em mim. E me perturba, me tira o sono. O que fazer? Por que essas situações aparecem agora? Não quero lidar com isso neste instante. Por que nesse exato momento? Você não pode esperar? Agora estou com pressa, muitas coisas a fazer. Quero voar.

A moça da casa rosada, quase abandonada, mal havia acordado aquela manhã, quando ouviu o soar da campanhia. Quem seria? Não aguardava ninguém, havia algum tempo. Já se acostumara com a companhia da solidão. E agora, sentia-se estranha diante de pessoas diferentes dela mesma. Acostumara-se com o silêncio das coisas, com a própria companhia, seus monólogos. A casa velha, a coleção de biscuit, o tapete desbotado da sala, a madeira, seu mundo. Lá fora nada lhe importava. No entanto, naquela manhã, havia decidido, depois de muito pensar, muito discutir consigo mesma sobre seus rumos, havia decidido que abandonaria tudo para conhecer a estranheza do mundo. Havia decidido que sairia daquele lugar, no alto da montanha solitária da pacata cidade. Queria misturar-se aos outros, ser outra. Conhecer. Deixar-se conhecer.
Mas quem seria? Quem viria até o alto da montanha para bater à sua porta? Quem viria interromper seus planos, todos os seus esquemas planejados para aquela manhã? Foi até a porta de mau-humor. Ainda hesitante. Deveria abrir a porta? Poderia fingir que não havia ninguém e esperar até a pessoa inoportuna embora. Din-don. São interrompidos seus pensamentos. A impaciência é, agora, sua companheira. Vai, então, até a porta decidida a expulsar o forasteiro. Deveria haver um bom motivo para importunar-lhe a essas horas da manhã. “Logo hoje que tenho tanto a fazer! Vamos acabar logo com isso, Veludo”. Disse a si mesma e a seu gato que apenas levantou as orelhas e continuou a dormir no sofá da sala.
Abre a porta. Não vê ninguém. Estranha, aliviada. “Foi embora”. Respira fundo. De repente, uma rosa segurada por uma mão estendida. Um corpo. Um homem. Que homem é esse? Seu coração dispara. Não esperava aquela visita, aquela rosa, aquela mão estendida oferecendo-lhe uma flor. Por que justo neste instante em que decide correr o mundo, vem algo, pedindo-lhe para ficar? Por que esse amor gratuito? Nunca o tinha visto ou o tinha desejado. Quem era aquele homem que batia a sua porta? Quis recusar, fechar a porta, ignorar. Não pode, o homem já havia entrado em sua vida, em sua casa. Procurava um lugar para sentar. “Moço, veja bem, não sei quem é, nem o que faz aqui, mas hoje tenho muito que fazer. Estou de malas prontas, de viagem. De passagem. Entenda, estou de malas prontas, de viagem. Preciso me apressar. Não tenho tempo para conversas, discussões. Deve haver um engano, bateu na porta errada, não sou sua amada”. O rapaz sorria e olhava para a moça como se já a conhecesse e soubesse seus segredos. Seu sorriso denunciava que já esperava aquela recepção. E cada atitude desconcertada que a moça tinha, o rapaz demonstrava mais certeza, em seu sorriso, de que aquilo tudo era esperado. E mais desconcertada a moça da casa rosada ficava. Não. Isso não podia estar acontecendo. Definitivamente deve haver algum engano. “Eu não o conheço. Como se atreve a olhar-me assim? Não lhe sou íntima. Como se chama?”
“Sou teus sonhos, o inesperado, a surpresa, o arrepio, o tremor, a vida que circula nas tuas veias”. Disse-lhe, respondendo seus pensamentos.

Imagem: Frida Kahlo, O suicídio de Dorothy Hale,1938.

13.5.09



Sempre gostei d'água, sempre senti-me viva n'água. Misturada, inteira dentro do mar. As ondas falam comigo, respondem às minhas perguntas a cada vez que em mim chegam: serenas, violentas, intensas, acolhedoras, límpidas. Descubro, então, que realmente sou água. Pura água, um dia, água pura. Cachoeira que chora. Salso chorão. A água doce que se encotra com o mar, Oxum e Yemanjá. Mãe Divina, Pachamama, Madeva. Sentimento que sente água. Amor líquido, fluido. Chuva. Bençãos do céu. Olhos molhados, coração que sente, língua d'alma. A lua, a mãe.

Imagem: René Magritte, Collective Invention 1933.

6.4.09



"Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso."


Ai me dói o peito. Quanta dor! É intensa interna não consigo chorar. Maldita dor. É mal de amor. Sou um sonhador. Vejo estrelas que já não existem mais e que daqui brilham tanto. Me apaixono por algo distante. Será que ainda brilha? Ainda ilmunina o horizonte. Ilumina a ilusão de ser logo adiante. E adiante. A mente voa, mas meus pés estão no chão. Não alcançam estrelas. Dói meu coração. Queria tocar luzes, sentir calor beleza doce de estrela. Meus pés estão no chão. Já não sei por onde ando, não sei se ando, quem me dera namorar estrelas. Piscam para mim. E sorrio mas não veem o brilho do meu sorriso pequeno e manso. Por que sonho com estrelas? Aqui tem mar-grama-fogo-ar. Quero o infinito, não tenho humildade. E as estrelas me chamam, voltam a piscar. Uma estrela cadente! Desce para ver-me. Corro até ela, mas o tal horizonte está sempre mais adiante.

Não encontro sentido no pequeno diário prosaico terreno. Um dia encontrarei? Queria deixar de fitar estrelas e sentir a terra pulsando no mesmo compasso do meu caminhar. E continua me doendo o coração. Uma dor vazia perdida sem sentido. Aflita. Onde está meu caminho? Que caminho tem coração?

Imagem: René Magritte, Espelho Falso
Excerto: Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados.

23.1.09

"É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno."

Vejo uma amiga dia desses. A pata do bicho que ela tenta engolir está esperneando no canto da boca. Dias depois um sapo enorme pula em minha garganta e acordei com falta de ar. Sem conseguir respirar. Tossi. Tentei vomitar. O bicho entala no esôfago, ali naquela região que dói muito quando se tranca o choro. Sabe? Pois é. Foi bem ali, naquele ponto que o maldito bicho ficou. Vivo e gritando. Aproveitei o líquido viscoso que ele largou em minha garganta para ajudar-me a engoli-lo. Dores horríveis no estômago. Contrações. Aquelas em que se tem vontade de quebrar tudo. O travesseiro pressionado contra a barriga. Aquelas dores em que se sente vontade de morder forte. Aquelas em que se chora feito uma criança. Chorei. Chorei muito, sem colo. Ainda não digeri. Devia existir uma intervenção cirúrgica para esses casos de sapos insistentes engolidos à força. Um método rápido e com anestesia. Em um instante se tira o bicho dali, sem dó nem piedade.
Outro lugar tem me causado dores de cabeça. As costas doem muito. Dores fortes. Não sei se é pelo fato dos sapos se alojarem na garganta. Deve ter relação. É bem atrás, no que se chama de cervical, o pescoço. Dói muito. Deveria ter como arrancar fora e colocar uma prótese de metal. Sinto que sou o próprio Atlas. Será que ele sentia dores na costas? Acho que não. Não devia, não. Afinal, ele era um Titã! Um Titã! Eu não sou um Titã. E porque diabos estou segurando o mundo? Nem tenho as costas largas! No início, achei que podia. Mas é pesado!
Passava pelo centro esses dias e entrei na Galeria Chaves que dizia: vidas passadas, numerologia, mapa astral tudo por três reais. Mas a banca estava fechada. Isso tudo deve ter uma explicação maior. É estranho tudo isso. Quando penso nessas coisas, sinto-me menor que o sapo verde. E identifico-me com uma barata, um bicho tão sem noção de si mesmo e do mundo. Tão fora de tudo. Tão desamparado. Entocado que. Não sei. Nasce em mim um sentimento de compaixão. De dó. E vejo que também nada sei, um sentimento de igualdade toma conta de mim e sinto que eu e a barata somos feitas da mesma coisa e não só ela, mas eu também não sei o que faço aqui.
Excerto: Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.

7.1.09

A Vida Pulsa


"Glória perguntou-lhe:
- Por que é que você pede tanta aspirina? Não estou reclamando, embora isso custe dinheiro.
- É para eu não me doer.
- Como é que é? Hein? Você se dói?
- Eu me dôo o tempo todo.
- Aonde?
- Dentro, não sei explicar."


A mulher sente uma raiva canina, vontade de mostrar os dentes. Ela rosna. Necessidade de marcar território, delimitar espaço, riscar limites no chão. Onde estão suas fronteiras? Pergunta-se. Seus guardas e lobos que vigiavam o sagrado bosque do eu? Agora ela dá voltas em torno de si mesma. Cachorro acuando. Quer morder! Invadiram seu território, os guardas convidaram os inimigos para entrar. Devastaram árvores, a seiva corre pelo tronco. Ferida aberta, pulsante. Ranger de dentes. Impropérios, palavras de baixo calão, gritos estridentes, entre-dentes, avisos. Agora, já se foram e nada pôde fazer. Vontade de levar o inimigo à morte. Tocaia. Arma branca. Não! Guerra de trincheiras. Inimigo declarado, fronteiras definidas. Combate a céu aberto. Público. Raiva vívida vermelha cor de sangue transborda fervilha em si. Raiva. Raiva dela mesma, de deixar que isso acontecesse mais uma vez. Lembra-se da exortação às mulheres passivas. A mãe fala: "não revida. Ignora. Quieta. Deixa. Calma. Cega." A filha teima. Faz o contrário. Até que, acorda um dia e não encontra seus guardas suas fronteiras. Tudo foi invadido, ultrapassado. Intrusos. E então, a filha percebe que aprendeu muito bem os anos de catequese. Perdeu seus instintos, os lobos foram presos e estão furiosos. O medo de soltá-los cresce a cada dia. Não se sabe do que são capazes, do tamanho e limites da raiva. Eles latem. Mostram os dentes. É uma matilha inteira. Sacodem os portões, fazem força para sair. A menina segura as grades e sorri. Na verdade queria mostrar os dentes. E mostra num sorriso disfarçado. O Coringa, a loucura. Quer criar a paz a todo custo. Na sua pele saltam as veias. Esconde o rosto. Esconde a mão fechada que quer dar um soco. O Louco aparece, faz estragos. Está tomada pela raiva trancada, furiosa. Socorro! O self grita. Emergência. Panela de pressão. Vulcão. Estrago. Devastação. Cinzas. Morte. Quebra de estruturas, Plutão em Capricórnio. Vinte e sete anos de trabalho. Vida nova. Renascimento. A Fênix. Novo ciclo se inicia. Tentativa de soltar os lobos. A menina corre.

Imagem: Frida Kahlo, Uns quantos golpes, 1935.
Excerto: Clarice Lispector, A hora da estrela.

21.12.08

A beleza das coisas


"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou."


O Eu ainda não se reconhece em mim mesma, a imagem é falsa, a visão embassada, a atitude enganada, a ilusão fortificada. Enquanto isso, o amor é sufocado por miragens, totens e tabus. Só quando o Eu tomar conta do Ser e a imagem se esvaziar e o falso brilho se apagar, a liberdade virá e o amor se libertará e se manifestará da forma que só ele sabe: puro, livre, intenso, alegre, grande, confortador, pleno. Tudo será amor e a toda volta estará sua presença. Belo, perfeito, perfumado como jasmim. A delicadeza da flor, a mistura tênue de cores e tons em cada pétala. A unidade na harmonia, a perfeição. A espiral. Onda do mar que nasce e morre na beira da praia para nos lavar. A vida em movimento. Dança de Shiva. Nascimento e morte. A criança dando os primeiros passos, o sorriso ensolorado da queda. A certeza da perfeição, o preto e o branco se fundem. Somos maiores que nós mesmos. Os quatro elementos formam um quinto. A quinta essência. O Espírito. Então, tudo será parte e todo, único e diferente. A diferença na unidade. O medo se dissipará, seremos tomados pela onda serena do amor. E tudo se expandirá.
Mas o Eu ainda não se reconhece em mim. Ardente desejo me toma. Necessidade de sentir a alegria eterna da alma, do Universo. A sincronia da vida, dos planetas em movimento. Quero entregar-me a essa enegia. Raio transformador. Júpiter. Expansão ilimitada. Confiança. Então a riqueza do mundo, a variedade da manifestação do amor. O Eu.

Imagem: Kandinsky, Small pleasures.
Excerto: Clarice Lispector, A hora da estrela.

13.12.08


"Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte."


Amarrada. A moça está amarrada em emaranhados que ela mesma fez noite passada. Tentava fiar toda a sua vida. Perdeu o controle, perdeu o norte e adormeceu. Caiu em sono profundo de longos pesadelos. Parecem reais. É tomada por um medo de não acordar. Ou será que está acordada? Confunde-se. Sonha. Entra num beco sem saída, que cai num poço profundo. Mergulho no inconsciente. Perdeu-se. A Alice perdida no seu próprio mundo. Visões, imagens fantásticas. O sorriso do gato. Milhares de histórias lhe vêm à mente e não consegue mais distinguir fantasia e realidade. Tudo se funde. Espetou o dedo no fuso enquanto tecia seu destino que parecia certo. Agora, Penélope espera Odisseu. Só seu amor pode lhe despertar para vida. Teme não reconhecê-lo na sua volta, teme não aguentar sua espera perder-se nos seus sonhos. Ficar ali. Emaranhada entre lãs e linhas, destinos fantásticos. Questiona-se. Deve esperar? Deve ceder? Há tantos chamados, tantas luzes, tantos brilhos em seus sonhos e linhas que entorpecem suas angústias e anseios. Entorpecem sua lembrança, seu amor por Odisseu. Olha a sua volta. Vê Odisseu em todos os rostos. Não será ele? Dá-me um beijo, pensa. Vem cá e desperta-me desse tormento. Encosta seus lábios nesses rostos. Desfacelam-se. E tudo é nada. Miragem. Devaneios criados. Fiados. O tear conhece seus segredos, todos os dias ajuda a tecer seu destino, que a noite desfia. Cada dia é um recomeço. Desencanto. Desamor. Em meio a figuras míticas, sente que as formas feitas de lã e linha têm muito a dizer. O que aprender com esses sonhos? Escuta as batidas do coração. Seu novo norte.


Imagem: Vincent Van Gogh, Peasant woman winding bobbins.

Excerto: Marina Colasanti, A moça tecelã.

3.12.08


"Perdoa, meu amor, perdoa/Perdoa se lhe magoei/A minha vida era só melancolia/Até você me aparecer um dia/Como se fosse uma rosa fugidia/Fez dos meus sonhos esta louca fantasia"


Eu não sei o que sinto. Simplismente sinto. Desejo medo. Meus pés estão sobre as pedras de uma cachoeira linda, estou no limite da queda das águas, quero jogar-me. Cair nas águas, sentir seus frescor, sua energia. Mas parece alto demais, violenta demais suas águas. Então, o medo me toma. E fico estática. Ali em cima. Olho para ela. Envolvente. Sedutor movimento. Ouço sua voz. É música. Ela me conta muitas coisas e sinto mais vontade de atirar-me em suas águas. E mais medo. E fico confusa. Não quero perder essa sensação, não quero perder-te. Mas tenho de deixar a vida seguir seu fluxo, cada gota tomar seu caminho. Porque resistir? É tudo tão desconhecido. Ou conhecido? Parece, volto ao passado ao te sentir. Como se já tivesse sentido isso. E a dúvida me toma. Não quero. Eu quero. Eu quero o colo. O beijo d'água doce em meu rosto. O abraço, o envolvimento do rio que me toma. Fecho os olhos. Eu sou a água. Toda a sensação passa em minha mente como realidade. Vivencio em meus poros. Mas continuo ali. Parada. Os pés escorregam sobre as pedras. Piso em falso. A insegurança se apodera de mim. Preciso me tornar mais água, fluída como ela. Mais pedra, firme. Entrego-me a minha natureza.

Imagem: René Magritte, The evening dress, 1954.
Excerto: Casemiro Viera, Perdoa, meu amor.

22.11.08



"No retrato que me faço
- traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!"


Gostava de pensar que uma velha habitava meu corpo. Um espírito de velha. E como toda velha, essa também não deixava de ser rabujenta e a avó querida e sábia. Também não deixava de ser caduca e faladeira e cheia de manias andando com suas chinelas pra lá e pra cá. Metia o bedelho onde não era chamada, achava que sabia tudo, afinal tinha mais idade. Sempre estava com razão. E, algumas vezes dava-se conta de sua velhice, não dava o braço a torcer; - "vão achar que eu estou ficando velha". Criei essa velha que explica a mim mesma minhas rabujices, meu gosto velho. Realiza meu desejo de sábia mulher, sabedoria da experiência. A madureza tranqüila de quem já viu tudo no mundo e não se surpreende com nada mais. Acha graça de tudo, de si mesma. Acha-se engraçada, sua cara engraçada, olha-se e não vê seu reflexo. É uma velha. Mas o fato de ser velha não a fez esquecer sua juventude tampouco sua infância, os anos parecem aumentar sua capacidade de lembrar, - se surpreende. Músicas, cheiros, gostos, sorrisos, fotos, cenas do hoje que a levam imediatamente para o ontem. Quem a vê, não imagina o que se passa em sua mente, é como um nítido sonho. Lembra de seus amores e de cada detalhe. O sorriso os gestos os cabelos os olhares as mãos entrelaçadas os abraços os beijos. Amou. Amou a alma além do corpo. Como eram lindos os seus amores e desamores. Os gostos da infância. Admira-se com a vida, o ser, ama, sente. Vê seus netos. Vira menina-velha velha-menina. Rejuvenesce. Então ela brinca e ri.
Portinari, Cambalhota - 1958.
Mário Quintana, O auto-retrato.