13.12.08


"Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte."


Amarrada. A moça está amarrada em emaranhados que ela mesma fez noite passada. Tentava fiar toda a sua vida. Perdeu o controle, perdeu o norte e adormeceu. Caiu em sono profundo de longos pesadelos. Parecem reais. É tomada por um medo de não acordar. Ou será que está acordada? Confunde-se. Sonha. Entra num beco sem saída, que cai num poço profundo. Mergulho no inconsciente. Perdeu-se. A Alice perdida no seu próprio mundo. Visões, imagens fantásticas. O sorriso do gato. Milhares de histórias lhe vêm à mente e não consegue mais distinguir fantasia e realidade. Tudo se funde. Espetou o dedo no fuso enquanto tecia seu destino que parecia certo. Agora, Penélope espera Odisseu. Só seu amor pode lhe despertar para vida. Teme não reconhecê-lo na sua volta, teme não aguentar sua espera perder-se nos seus sonhos. Ficar ali. Emaranhada entre lãs e linhas, destinos fantásticos. Questiona-se. Deve esperar? Deve ceder? Há tantos chamados, tantas luzes, tantos brilhos em seus sonhos e linhas que entorpecem suas angústias e anseios. Entorpecem sua lembrança, seu amor por Odisseu. Olha a sua volta. Vê Odisseu em todos os rostos. Não será ele? Dá-me um beijo, pensa. Vem cá e desperta-me desse tormento. Encosta seus lábios nesses rostos. Desfacelam-se. E tudo é nada. Miragem. Devaneios criados. Fiados. O tear conhece seus segredos, todos os dias ajuda a tecer seu destino, que a noite desfia. Cada dia é um recomeço. Desencanto. Desamor. Em meio a figuras míticas, sente que as formas feitas de lã e linha têm muito a dizer. O que aprender com esses sonhos? Escuta as batidas do coração. Seu novo norte.


Imagem: Vincent Van Gogh, Peasant woman winding bobbins.

Excerto: Marina Colasanti, A moça tecelã.

Um comentário:

Diego da Silva Rodrigues disse...

Comentário, antes tarde do que nunca: o norte sempre foi o mesmo, o que ela achou foi uma bússula.