"É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno." 23.1.09
"É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno." 7.1.09
A Vida Pulsa

21.12.08
A beleza das coisas

"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou."
O Eu ainda não se reconhece em mim mesma, a imagem é falsa, a visão embassada, a atitude enganada, a ilusão fortificada. Enquanto isso, o amor é sufocado por miragens, totens e tabus. Só quando o Eu tomar conta do Ser e a imagem se esvaziar e o falso brilho se apagar, a liberdade virá e o amor se libertará e se manifestará da forma que só ele sabe: puro, livre, intenso, alegre, grande, confortador, pleno. Tudo será amor e a toda volta estará sua presença. Belo, perfeito, perfumado como jasmim. A delicadeza da flor, a mistura tênue de cores e tons em cada pétala. A unidade na harmonia, a perfeição. A espiral. Onda do mar que nasce e morre na beira da praia para nos lavar. A vida em movimento. Dança de Shiva. Nascimento e morte. A criança dando os primeiros passos, o sorriso ensolorado da queda. A certeza da perfeição, o preto e o branco se fundem. Somos maiores que nós mesmos. Os quatro elementos formam um quinto. A quinta essência. O Espírito. Então, tudo será parte e todo, único e diferente. A diferença na unidade. O medo se dissipará, seremos tomados pela onda serena do amor. E tudo se expandirá.
Mas o Eu ainda não se reconhece em mim. Ardente desejo me toma. Necessidade de sentir a alegria eterna da alma, do Universo. A sincronia da vida, dos planetas em movimento. Quero entregar-me a essa enegia. Raio transformador. Júpiter. Expansão ilimitada. Confiança. Então a riqueza do mundo, a variedade da manifestação do amor. O Eu.
Imagem: Kandinsky, Small pleasures.
Excerto: Clarice Lispector, A hora da estrela.
13.12.08

Amarrada. A moça está amarrada em emaranhados que ela mesma fez noite passada. Tentava fiar toda a sua vida. Perdeu o controle, perdeu o norte e adormeceu. Caiu em sono profundo de longos pesadelos. Parecem reais. É tomada por um medo de não acordar. Ou será que está acordada? Confunde-se. Sonha. Entra num beco sem saída, que cai num poço profundo. Mergulho no inconsciente. Perdeu-se. A Alice perdida no seu próprio mundo. Visões, imagens fantásticas. O sorriso do gato. Milhares de histórias lhe vêm à mente e não consegue mais distinguir fantasia e realidade. Tudo se funde. Espetou o dedo no fuso enquanto tecia seu destino que parecia certo. Agora, Penélope espera Odisseu. Só seu amor pode lhe despertar para vida. Teme não reconhecê-lo na sua volta, teme não aguentar sua espera perder-se nos seus sonhos. Ficar ali. Emaranhada entre lãs e linhas, destinos fantásticos. Questiona-se. Deve esperar? Deve ceder? Há tantos chamados, tantas luzes, tantos brilhos em seus sonhos e linhas que entorpecem suas angústias e anseios. Entorpecem sua lembrança, seu amor por Odisseu. Olha a sua volta. Vê Odisseu em todos os rostos. Não será ele? Dá-me um beijo, pensa. Vem cá e desperta-me desse tormento. Encosta seus lábios nesses rostos. Desfacelam-se. E tudo é nada. Miragem. Devaneios criados. Fiados. O tear conhece seus segredos, todos os dias ajuda a tecer seu destino, que a noite desfia. Cada dia é um recomeço. Desencanto. Desamor. Em meio a figuras míticas, sente que as formas feitas de lã e linha têm muito a dizer. O que aprender com esses sonhos? Escuta as batidas do coração. Seu novo norte.
Imagem: Vincent Van Gogh, Peasant woman winding bobbins.
Excerto: Marina Colasanti, A moça tecelã.
3.12.08

Eu não sei o que sinto. Simplismente sinto. Desejo medo. Meus pés estão sobre as pedras de uma cachoeira linda, estou no limite da queda das águas, quero jogar-me. Cair nas águas, sentir seus frescor, sua energia. Mas parece alto demais, violenta demais suas águas. Então, o medo me toma. E fico estática. Ali em cima. Olho para ela. Envolvente. Sedutor movimento. Ouço sua voz. É música. Ela me conta muitas coisas e sinto mais vontade de atirar-me em suas águas. E mais medo. E fico confusa. Não quero perder essa sensação, não quero perder-te. Mas tenho de deixar a vida seguir seu fluxo, cada gota tomar seu caminho. Porque resistir? É tudo tão desconhecido. Ou conhecido? Parece, volto ao passado ao te sentir. Como se já tivesse sentido isso. E a dúvida me toma. Não quero. Eu quero. Eu quero o colo. O beijo d'água doce em meu rosto. O abraço, o envolvimento do rio que me toma. Fecho os olhos. Eu sou a água. Toda a sensação passa em minha mente como realidade. Vivencio em meus poros. Mas continuo ali. Parada. Os pés escorregam sobre as pedras. Piso em falso. A insegurança se apodera de mim. Preciso me tornar mais água, fluída como ela. Mais pedra, firme. Entrego-me a minha natureza.
Imagem: René Magritte, The evening dress, 1954.
Excerto: Casemiro Viera, Perdoa, meu amor.
22.11.08

- traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!"
Gostava de pensar que uma velha habitava meu corpo. Um espírito de velha. E como toda velha, essa também não deixava de ser rabujenta e a avó querida e sábia. Também não deixava de ser caduca e faladeira e cheia de manias andando com suas chinelas pra lá e pra cá. Metia o bedelho onde não era chamada, achava que sabia tudo, afinal tinha mais idade. Sempre estava com razão. E, algumas vezes dava-se conta de sua velhice, não dava o braço a torcer; - "vão achar que eu estou ficando velha". Criei essa velha que explica a mim mesma minhas rabujices, meu gosto velho. Realiza meu desejo de sábia mulher, sabedoria da experiência. A madureza tranqüila de quem já viu tudo no mundo e não se surpreende com nada mais. Acha graça de tudo, de si mesma. Acha-se engraçada, sua cara engraçada, olha-se e não vê seu reflexo. É uma velha. Mas o fato de ser velha não a fez esquecer sua juventude tampouco sua infância, os anos parecem aumentar sua capacidade de lembrar, - se surpreende. Músicas, cheiros, gostos, sorrisos, fotos, cenas do hoje que a levam imediatamente para o ontem. Quem a vê, não imagina o que se passa em sua mente, é como um nítido sonho. Lembra de seus amores e de cada detalhe. O sorriso os gestos os cabelos os olhares as mãos entrelaçadas os abraços os beijos. Amou. Amou a alma além do corpo. Como eram lindos os seus amores e desamores. Os gostos da infância. Admira-se com a vida, o ser, ama, sente. Vê seus netos. Vira menina-velha velha-menina. Rejuvenesce. Então ela brinca e ri.
Mário Quintana, O auto-retrato.
21.6.06

És água. Sinto que escapas das minhas mãos. E quanto mais te deixo por querer que voltes, mais te perco. Prender-te seria inútil. És água. Toma outra forma, passa por outras mãos. A minha premonição: um dia o afastamento. Faz curso de água-águia corre longe. Vai. Eu sigo meu caminho, bebo outros fluídos. Conheço outros risos, experimento outros sabores. Provação. Um dia o retorno estranho. Forasteiro. Então estrangeiro te percebo te toco te bebo te provo. Não és água. O laço se perde e já não sinto mais tua falta.
Cairá uma lágrima. Mansa. Única. Em um canto só. Saboreio a solidão, estrangeira em mim. Estou só. Só se sente e só se vive. Estranho retorno do que nunca existiu.
21.5.06
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Clarice Lispector, Amor.
1.4.06

Parece que será sempre dessa maneira. Um tom confessional. Essa forma de cantar, esse timbre incomoda, mas este é meu canto. Expressão dor tensão. O corpo se apequena, ele desafina e grita. Um samba de uma nota só. De mente atada, dementada, canto o meu canto no meu canto. Canto calada na noite. Noite de noite corta o silêncio que invade os cômodos da casa acomodada desacomodando meu corpo, crispando no chão, violência das paredes. Meu corpo em expansão. Queria sair. Não me deixam. Essa vida de retirante, um sol novo a cada dia. O oasis sempre mais a frente e a morte sempre a minha espera. Espera. Esperança. Muda, sentada, deitada, gorda no tapete da sala. Preguiçosa, espera doida, enlouquecida, velha-menina. Velha mania de esperar. Espera, a vida está partindo e eu estou partida, eu vou e fico. Ando e paro.
Velha Guarda da Portela, Volta meu amor.
12.3.06
Do valor intrínseco das coisas

5.3.06

Por onde começar depois de tanto tempo longe? Não estou inspirada para escrever. Meu estomago está vazio, não há nada para vomitar em forma de palavras. Só em forma de choro, de caminhadas, de viagens, preciso viajar. Há fatos, neles tento me apegar. É isso que eu sei. Fatos. Sentimentos. Olhares. Sensações.
Loucura? Loucura?! Por quê? Por que tinha de encontrar isso agora? Não! Logo agora que eu estava tão cheia de mim. Tão cheia de meu próprio amor. Estou vazia, o ar se foi longe. Entreguei ao primeiro missionário que passava pela estrada os verdes daquela terra, de repente não há chuvas. A umidade que faz brotar a vida, seca a cada dia e tudo se torna deserto. Pássaros pretos rompem o enorme silêncio que há naquela terra de noite fechada sem estrelas. Famintos, já não encontram a vida-morta no deserto e deparam-se com a própria morte. Morre pássaros morre terra morre ar que. Tudo continua insessante e parece óbvio para quem tem a alma pequena. O impresível, a volta ainda é o que me faz seguir nessa vida de retirante.
Salvador Dalí, Cisnes refletindo elefantes.
